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terça-feira, 12 de novembro de 2013

É só um pesadelo...



Vai descalça. Não pela areia da praia em visão sublime, em imagem idílica, em imagem de fim de filme... com os créditos a rolar e onde o espectador fica com um sorriso nos lábios ciente de que a vida pode, também ter fins felizes.
Não.
Ela vai de pés descalços mas pela aspereza do cimento, da estrada que é feita de fumo e de gotas de sujidade. Estrada feita do suor dos homens que em dias de verão insuportáveis despejaram o alcatrão na gravilha que o esperava. E agora é este alcatrão já sujo e já gasto (mas não menos áspero) que ela pisa com os pés descalços. O olhar prende-se a nenhures assim como os sonhos que deixou de ter já vão tantos anos quantos os anos da estrada que agora pisa.
Vai de pés descalços e tem-nos assim com a mesma opção que a sua vida seguiu o rumo que seguiu.
Nunca lhe perguntaram o que queria ser quando fosse grande.
Nasceu já grande. Já adulta. Já mulher feita e já com rugas. Já com o peso de mil gerações que se lhe antecederam e a quem também nunca perguntaram nem por sonhos nem por desejos. Os medos seria escusado também perguntar. São os de sempre. Vão ser sempre iguais. Os sonhos são utopias. Só se conhecem o seu lado negativo e aí têm outra palavra para os designar. São pesadelos.
Sabe-o por experiência própria. Não porque alguma vez tenha acordado a gritar e com uma mão amiga na cabeça a dizer "shiuuu... volta a dormir... foi só um pesadelo. Está tudo bem. Volta a dormir".
Vai descalça e poderíamos dizer também quase que vai despida. Despida de vaidades, de imagens num espelho, de desejos que outra coisa que não fosse uma estrada menos áspera, um caminho menos rugoso, menos areia e menos pedras.
Os obstáculos fazem parte, dizem.
As pedras fazem parte como dizia o outro é pegar nelas e fazer castelos, dizem,
As estradas têm que ser sinuosas, dizem.
Mas isso tudo é válido para quem chega, para quem tem onde chegar.
E para quem só tem que continuar a andar?
Vai descalça.
Vai.
Vai de pés descalços.
Sim.
Sim, vai mas sem nunca saber que pode parar.
Mas como dizem... não se pode saber tudo...
E nós fingimos não saber...
Shiuuu... já passou. Foi só um pesadelo. Volta a dormir!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Espelho meu, espelho meu...


Se me deres uma imagem juro que farei os mais belos comentários
irei-te descrever as suas cores até lhes sentires o sabor na boca
do sol irás sentir o seu calor
e se for uma imagem noturna
irás sentir o chão como os astronautas sentiram a lua
Se me deres um texto sentar-me-ei ao teu lado e os dois
passo a passo
iremos descodificar os seus sentidos
as suas mensagens
os mal-entendidos
o que ficou por dizer nas entre-linhas...
Mas não me faças perguntas
não me exijas respostas
não perguntes como estou
ou sequer como quero estar
não me exijas respostas com o teu olhar
e se no meio das palavras só saírem baboseiras
desculpa-me mas não me deixes de falar.
Mas também te digo
com toda a sinceridade amigo
não te esqueças de olhar para ti antes de me criticares
não te iludas em sonhos que se calhar já nem são os teus
que se calhar são sonhos de estimação
meras ilusões
meras desilusões
Não me batas por não ser dona da verdade
ou por não ser aventureira
e deixar por descobrir países e mares
não me dês nas orelhas porque não faço perguntas
e não te entristeças por não te dar respostas...
se o meu silêncio te irrita
lembra-te que também tu te calas na tua própria dor
no teu próprio altivismo
nesse sarcasmo que finge e que engana
nesse esperar já quase sem esperança
No fundo somos imagens reflectidas no mesmo espelho
Sem perguntas, sem respostas
apenas o reflexo de uma ilusão.

terça-feira, 3 de julho de 2012

De A a Z...


É que não pode ser sempre assim!
Suspirou como se fosse o último.
Baixou os olhos e lutou para voltar a erguê-los
É que não pode...
e as forças faltaram-lhe para acabar a frase... para acabar de pensá-la, para as palavras ecoarem no seu cérebro, cansado, já de rastos.
É que não...
e os olhos cruzaram os dela e quando as palavras saíram só se ouviu
"É que..."
E ela sorriu e perguntou "O quê?"
E ele retribuiu o sorriso e disse só
"É..."
ao que ela prontamente respondeu
"Pois eu também acho, e ainda mais..."
e continuou a falar.
Ele sentiu que todas as palavras do dicionário saíam por ordem da sua boca.
Palavras e significados
e tudo aquilo era demais
e as palavras voltaram a ecoar
É que não pode ser sempre assim!
...
deixou-se estar a ouvir os significados de palavras sem sentido
à espera que chegasse a letra Z!


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Espaço, tempo e silêncios

Ele tocou-lhe no ombro com a suavidade de algo que não se quer dizer
que não faz sentido ser-se dito
ou foi ela quem lhe tocou
os gestos encontram-se difusos, confusos, diluídos na memória
tocaram-se
sentiram-se
fizeram do espaço algo indefinido
sem sentido
inexistente
Deixaram-se ficar ali de olhos nos olhos, de lábios nos lábios, de mãos a tocarem-se como se fossem instrumentos musicais
deixaram-se levar pelas notas que a noite ia tocando
ela entoando
ele ouvindo
ou o contrário
que a memória faz-nos sempre partidas e torna-se selectiva
deixaram as palavras e os momentos correrem pelas horas
num sprint em direção a uma meta que nenhum deles sabia existir
Assim são os assuntos da carne
que não se pode falar de coração
(se bem que... o que é o coração que não um pedaço de carne?)
Deixaram-se estar enquanto as horas passavam
e como nos filmes
deixaram essa noite acontecer sabendo que outras não se seguiam
E no dia seguinte ficou o espaço
espesso
definido
a fazer-se presente
e deixaram-se ficar de olhos no horizonte
de lábios secos
e com as mãos nos bolsos
Ficou o silêncio
Mas sem arrependimentos
porque a música não acontece sem pausas
e o silêncio é essencial para que se possa ouvir mais
e o espaço é necessário para se ter mais por onde andar

terça-feira, 27 de março de 2012

Apenas para se deixar cair

Ainda com as mãos a agarrar na cabeça sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés.
O vazio.
A sensação de que o mundo tinha acabado.
que deveria ter acabado.
que era bom se assim fosse
Ainda com as mãos na cabeça deixou-se levar para onde os olhos não ousaram mais ir
deixou-se ir
só para não ficar.
Ainda com as mãos na cabeça achou por bem deixá-las cair
os braços pendurados ao longo do corpo
braços sem acção, penduricalhos que lhe caíam dos ombros
os ombros que apenas ali se mantinham porque sem as mãos alguma coisa tinha que segurar a cabeça
e o vento que não corria e que devia correr
e a chuva que não caía para disfarçar o que o rosto queria esconder
e a vergonha dos braços caídos
e a vontade de correr
e o colocar de novo as mãos na cabeça
e o chão que não chegou a fugir
e os pés a tremerem de medo
à espera
a aguardar a chegada do vazio
apenas para se deixar cair...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Narciso




Sempre se despedia quando chegava a altura de mudar.
Despedia-se dos locais e das paisagens, dos caminhos trilhados, dos trilhos desbravados e guardava esses momentos de despedida como memórias do passado.
Despedia-se dos locais, das coisas e das acções... mas nunca das pessoas.
Despedia-se do riacho onde amiúde saciava a sede (mas sempre de olhos fechados! Não que receasse apaixonar-se pelo seu reflexo como se julga que diz o mito, mas porque não queria correr o risco de se reencontrar!), despedia-se do sino da igreja que fora substituído por um imóvel altifalante de barulho estridente e metalizado. Guardava na memória as horas que passara à espera que fosse o sino a dar as horas, mesmo que apenas embalado pelo vento.
Despedia-se do café onde vira as horas passar, não das pessoas... nunca das pessoas, mas da mesa onde se sentava (sempre a mesma, que o Homem é um animal de hábitos e há forças contra as quais é escusado lutar!), da cadeira que ocupava e que lhe suportava o peso quando até para ele era peso a mais para aguentar.
Despedia-se do riso das crianças e das suas brincadeiras (mas nunca das crianças!) que pareciam ficar loucas quando tocava para o intervalo. Despedia-se do cheiro do pão com manteiga e do leite com chocolate que era devorado no intervalo de jogos desenhados a giz no chão (o giz que habilmente surripiavam nas contas da Professora).
Despedia-se das pedras da calçada que em tempos idos foram calcadas por homens suados do calor dos dias e que tantas vezes tinham por ele sido calcorreadas.
Despedia-se para poder continuar a andar por caminhos errantes que nunca sentiu serem os errados.
Em cada novo lugar tornava-se aprendiz de um novo ofício e aluno atento dos novos hábitos a adoptar, dos novos risos a escutar, dos novos sinos a soar.
Soube desde sempre que era nesta errância que se encontrava o seu constante despertar.
Nunca foi uma questão de se redescobrir mas sempre a intenção de se reinventar.
E por cada riacho que passava parava sempre para se refrescar.
Sempre de olhos fechados...
Afinal o Homem é um animal de hábitos e há forças contra as quais não vale mesmo a pena lutar!


Imagem: Narciso d'amore intermedio by Nuvola
(All Rights reserved)

terça-feira, 28 de abril de 2009

Vou tentar...



Perdoem-me a falta de palavras
a falta de abraços
a falta de sorrisos
a falta de conversas
Perdoem-me andar pelas avessas
andar sem estar
estar sem aparecer
Perdoem-me o não conseguir ser
o que vocês esperam que eu seja
Perdoem-me não ser quem vocês queriam
por vezes também eu sou quem não quero
Perdoem-me por estar caladinha
por ser low-profile
por ser má companhia
Sou apenas quem sou!
Perdoem-me pelas vossas expectativas
pelos vossos anseios
Perdoem-me pelos vossos preconceitos
e por isso me deixar sem jeito
Perdoem-me pelo passado mal fadado
pelas relações que não duram
e até pela chuva
Perdoem-me por ser nova, por ser morena, por ser loura
pela cor e pela textura
por ser uma ruptura
por não ser igual
Perdoem-me se for possível perdoar
eu prometo que vou tentar!


Fotografia: My Duality by Martin Stranka
(All rights deserved)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Não mais lembrar


Escrevia freneticamente como se isso a fosse acalmar, como se as letras desenhadas no seu teclado fossem de alguma maneira partes de um calmante.
Escrevia freneticamente como que a querer transpor para o texto a sua raiva e a falta dela, a sua tristeza e a falta dela, a sua indignação, a sua confusão, a sua complicação.
Escrevia freneticamente como se assim, se fosse rápida o suficiente, se fosse ágil, como se isso lhe trouxesse audacidade, como se isso lhe trouxesse coragem como se isso lhe trouxesse o que faltava agora à sua vida e que ainda não tinha as palavras certas para dizer o que era.
Escrevia freneticamente como se isso a deixasse deitar mãos ao pensamento e assim ter mãos neles.
Escrevia freneticamente porque não sabia outra maneira de escrever tal como não sabia outra maneira de viver.
Escrevia freneticamente na esperança que isso ajudasse a mudar as coisas, a mudar os sentimentos, a mudar tudo o que já tinha acontecido e assim mudar o rumo das coisas por vir.
Escrevia freneticamente porque queria este fluir constante de mudanças, queria as alterações, as modificações. Queria a vida diferente, ser outro tipo de gente e por vezes nem queria mesmo ser pessoa.
Escrevia freneticamente para ao mesmo tempo que ficava escrito ficar também logo tudo esquecido.
Queria não mais lembrar.
Queria não ter o que esquecer.


Fotografia: Holocaust memorial by Toko
(All rights reserved)

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Devagar para não magoar



Desceu as escadas devagar. Toda a sua atenção presa a cada passo que dava. De orelhas arrebitadas (expressão que a fazia rir pois sempre a lembrava de cães patuscos de orelhas pontiagudas) lá ia dando atenção a cada gemer da madeira que reclamava por uma noite descansada e isenta de pés descalços a sorrateiramente pisarem-lhe as costas.
Era-lhe inevitável dar características humanas às coisas que a rodeavam, só assim podia sentir-se contextualizada, podia fazer parte do quadro.
O pai sempre lhe dissera que era importante estar enquadrada, estar contextualizada. Seguir rotinas, imitar padrões. Quando era mais pequena estas conversas metiam-lhe medo. Estar enquadrada era para ela ser quadro pendurado numa parede. Ser algo esquecido. Seguir padrões já era algo mais divertido e que a fazia sonhar. Imaginava-se a correr desenfreadamente atrás de padrões... axadrezados, listados... invariavelmente ria-se como só uma criança sabe rir até ao momento em que reparava que o pai continuava a falar com ela com um ar muito sério e compenetrado e ela voltava ao abanar da cabeça afirmativamente ao mesmo tempo em que automaticamente lhe saia da boca um "Sim pai!".
As conversas terminavam sempre do mesmo modo, para ela sempre enigmático, em que o pai com um olhar triste (demasiado triste pensava ela) lhe dizia "Não queres ficar como a mamã pois não?!" e ela acenava que não com a cabeça mas sem perceber porque concordara sempre com o pai.
Da mãe tinha a imagem de uma mulher feliz, despreocupada, sorridente. Capaz também ela de correr atrás de padrões, capaz de se imaginar quadro, capaz de ter medo de magoar as costas dos degraus de madeira, de suavemente tocar no móvel da entrada quando entrava em casa e desejar-lhe bom noite, capaz de dar festinhas no sofá enquanto nele se encontrava deitada. Percebeu cedo que herdara todas estas coisas da mãe e desde sempre fizera tudo para o esconder do pai.
Durante anos continuou a acenar que não ao pai e a fingir ser algo completamente diferente da mãe.
Deixou de fingir no dia em que foi na madeira que enquadrava o pai que deu as últimas festas. Terminou quando acariciou aquele rectângulo de madeira maciça pela última vez como se da pele do pai se tratasse.
Passados muitos anos percebeu que afinal não tinha terminado.
Ali estava ela, de camisa de dormir até aos pés e o cabelo já todo grisalho a descer as escadas com cuidado e doçura para não magoar as costas dos degraus de madeira, a acariciar delicadamente o vão da escada, a sonhar que corria atrás de padrões e a sentir-se feliz por nunca ter sido enquadrada num!


Fotografia: Alice in the Midnight Game by Zhang Jingna
(All rights reserved)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

...



Passou-lhe a vida ao lado e as palavras que ficaram por dizer ficaram
perdidas para sempre no espaço entre os sons, perdidas entre as vogais e
as consoantes, perdidas de sentidos.
Passou-lhe a vida ao lado e foi quando quis de facto falar que a voz lhe
faltou, foi exactamente no momento em que se quis chegar à frente que
lhe faltaram as forças ficando a ver o resto do mundo que passava ao seu
lado sem reparar na sua presença.
Viu-se assim de mão atadas, de pés atados, de palavras atadas.
Viu-se assim limitada e quis maldizer a vida, quis mandar para o inferno
os deuses, quis ir ela própria para o inferno.
Viu-se assim velha e envelhecida, perdida e esquecida e quis poder
voltar atrás, quis escalar as montanhas que olhava de longe, quis cantar
as notas que ficaram por ecoar nos caminhos que percorreu a custo, quis
não ter chorado tanto os amores e ter-se dado a amar mais, quis ter
vivido mais a vida em vez de perder o tempo a negá-la, quis ter cantado
mais em vez de desgastar a voz a amaldiçoar o que só dela poderia
depender para melhorar.
Passou-lhe a vida ao lado e dava-se conta disso no exacto momento em que olhava a morte de frente! Não nos olhos que isso é característica importante demais para atribuir a algo que ceifa vidas de um modo tão arbitrário, mas de frente que o respeito é bonito!
E foi nesse confronto, foi nesse momento em que se encontrava de frente para a morte, em que se encontrava de frente para o passado e para a impossibilidade de futuro que sentiu uma enorme falta de ar, uma aflição medonha, um medo indescritível. Foi nesse exacto momento que de um salto saiu da cama ainda meio azamboada com o sonho que tivera.
Sentada na beira da cama pensou que aquele sonho tinha sido um aviso, que não o podia ignorar.
Estava na altura de agarrar na sua própria com as suas próprias mãos!
Lá fora o dia começava a clarear.
Ela sentindo-se cheia de força sentiu-se ela própria a renascer.
Passado uns minutos voltou a deitar-se dando como terminada a luta que estava a combater com o sono.
Amanhã meteria mãos à obra hoje estava demasiado cansada.
E assim deixou passar mais um dia!


Imagem: Thank God for mental Illness by Petitescargot
(All rights reserved)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Desperdício



E de repente faz sentido
passam os anos e faz sentido
faz sentido o tique que já é parte da fisionomia de um rosto
que em tempos dava gosto
faz sentido a troca de insultos
em voz alta nos transportes públicos
porque vale tudo para colmatar o silêncio
faz sentido fazermos o gesto do "és mas é maluco!"
e o outro nem ver nisso um insulto
faz sentido o deixar de ouvir
o deixar de querer compreender
o deixar de querer
faz sentido o não conversar
e se é para debater
debate-se a compra de um novo sofá
a compra de uma nova mobília
para dar nova cor à vida
passam os anos e começa a fazer sentido
passa o tempo e parece que perdemos os sentidos
passa uma vida inteira e arrependemo-nos
Arrependemo-nos de não ter discutido
de não ter ouvido
de não ter ripostado ao insulto
de termos sido chamados de malucos
de não ter agarrado
de não termos mordido
de não termos beijado
de não termos sonhado
E de repente nada faz sentido
e de repente a vida soa-nos a desperdício
e sonhamos ter feito tudo diferente!


Fotografia: Characters by Toko
(All rights reserved)

Sussurros

Hoje não te procurei
Dei por isso quando o tempo já desfilava na passadeira do dia
Hoje não te procurei
Não quero com isso dizer que já não te quero
que te perdi
ou mesmo que me perdi de ti
mas hoje não te procurei
Com a cabeça cheia de palavras a querer sair
e o peito cheio de coisas que ainda não consigo definir
cheguei e não te procurei
E se puder admitir baixinho
como num sussurro feito delicadamente ao ouvido
se pudesse transmitir esta doçura às palavras
eu até te diria que hoje se pudesse
nem te procurava!


Fotografia: Momentaneous Power II by Sue Anna Joe
(All rights reserved)

terça-feira, 3 de março de 2009

Perdi


Perdi a noção do mundo no exacto momento em que o olhei de frente.
Perdi a noção do que significava a partir do momento em que o interroguei
Perdi a perspectiva quando o olhei de alto
e quando olhei para ele por baixo senti-me por ele esmagado
Olhei para o mundo dos parapeitos do meu prédio
a sentir os seus braços invisíveis a tocarem-me
a segurarem-me
a impedirem-me de cair
mas continuei a andar, continuei a olhar
E foi quando o medo chegou
quando a ingenuidade me abandonou
que me obriguei a parar de olhar o mundo de frente
em que perdi noção do que significava
em que perdi noção do que importava
em que ganhei a noção que já não acreditava!


Fotografia: Ali Teheran by Huseyin Turk
(All rights reserved)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Sentei-me


Sentei-me.
Sentei-me por sentir a incapacidade em mim a aumentar.
A incapacidade de continuar. A incapacidade de me manter de pé. A incapacidade de continuar a respirar.
Sentei-me.
Sentei-me porque de repente senti que tudo à minha volta parava e sentava-se também.
Porque de repente senti que o mundo parava o seu movimento e se eu continuasse a andar o caos iria nos inundar.
Sentei-me.
Sentei-me porque senti que assim iria salvar o mundo do eterno burburinho, da confusão sem mais senão, de tudo o que haveria de mal.
Sentei-me.
Sentei-me porque sabia no íntimo que assim acabava com a possibilidade, assim acabava com a impossibilidade, com os números infinitos e com os pares tão temidos.
Sentei-me.
Sentei-me devagar por sentir em mim a incapacidade de continuar.
Sentei-me porque finalmente precisava de descansar, precisava do distanciamento do andamento, precisava da perspectiva do olhar parado, precisava de me sentir ausente, precisava de me sentir ponto de partida para mais uma maratona, para mais uma corrida.
Respirei fundo enquanto fechava os olhos... respirei fundo enquanto os voltei a abrir... respirei fundo enquanto me levantava decidida a de novo partir.
Andei e até hoje nunca mais parei.
Andei sem pensar mais em me sentar.
Andei com a certeza de que quando precisasse não me iria mais sentar...
se é para descansar então que fique deitado.


Fotografia: Sitting, waiting, wishing by Toko
(All rights reserved)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Saudades do indeterminado

Corro a cidade sem saber se é a ti que procuro ou se é de ti que fujo... tal é a confusão que as voltas me fazem, tal é a repetição dos prédios, dos lugares. Lugares comuns porque repetiram-se vezes demais nos meus olhos e já não deixam lugar para a imaginação.
Corro a cidade com a mesma determinação com que corri do campo, com que fugi das árvores e dos silêncios, dos verdes e dos tons acastanhados. A mesma determinação que agora me embacia os sentidos, os mesmos silêncios que me deixam saudades dos verdes, os mesmos tons acastanhados que me deixam saudades do indeterminado, da ausência dos semáforos que me gritam aos olhos que devo andar, que devo parar.
Corro a cidade e trago no nariz os mil cheiros que me inundam no caminho, trago os carros e os seus escapes, trago as casas e os seus jantares, trago as pessoas e todas as suas vidas presas no nariz.
Corro a cidade e trago na boca os sabores das lojas, o sabor dos placards, o sabor dos copos que me acompanharam na vida, dos martinis e dos gins tónicos, dos vinhos bebidos sem racismos e sem distinções.
Corro a cidade com a mesma determinação de quem corre a maratona... à espera de ver a fita ao fim da corrida.
À espera que alguém me diga que não faz mal parar!


Fotografia: The City by Night by Guy Boden
(All rights reserved)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Vital


"Era vital. Para mim era vital!"
Passou a mão pelo cabelo ainda molhado do banho que acabara de tomar e enquanto sorria pensava que era vital. Tinha sido vital.
Riu-se e quase se assustou por ouvir o eco da sua gargalhada ecoar pela casa que parecia nunca estar cheia o suficiente e que ela achava que já se encontrava preenchida demais. Riu-se pela ideia, pelo conceito, pelo "então é vital porquê? Será mesmo uma questão de morte ou de vida?". Riu-se porque não era. Riu-se porque sentia que era sim senhor e que ninguém ousasse cruzar-se no seu caminho para dizer que não.
Sentou-se no sofá e desejou por momentos não ter deixado de fumar (há alturas em que os momentos seriam perfeitos apenas e com um cigarro aceso na mão). Embora soubesse que não era uma questão de vida (não no sentido em que a mesma se pode perder), a verdade é que a sua qualidade de vida dependia daquele momento, tinha dependido da honestidade daquele momento. E isso alterava, só por si, tudo o resto.
Podia até nem ter sido vital, pensou, mas que para si tinha tido um elevado grau de importância isso ninguém o podia negar e agora, depois do acto consumado, depois de tudo tratado, sentiu-se aliviada porque sentiu que desta vez fez o mais correcto a fazer!


Fotografia: Nadia by Huseyin Turk
(All rights reserved)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Amar-te nunca foi uma opção


"Amar-te Nunca foi uma opção!"
E no quarto fracamente iluminado por um dia que se deixava adormecer ficou a dúvida se as palavras teriam sido ditas ou se teriam sido as lágrimas que as desenharam no ar.
"Amar-te Nunca foi uma opção! Nunca me perguntaste se o querias e eu nunca te respondi que sim! Amar-te nunca foi uma opção tal como nunca foi uma questão!"
Nas paredes escurecidas pela humidade dos Invernos mais rigorosos, ainda se podiam distinguir as marcas das mãos que sobre elas pousaram em actos de sexo quase animalesco. Ainda se conseguia distinguir a marca do seu ombro esquerdo e do ombro direito dele quando, sem darem por isso, ficaram horas em pé encostados à parede a definir o futuro e a sonhar com os passos dados em conjunto. Conseguia-se ainda distinguir o que os distinguia do resto do mundo, esse amor que era só deles.
"não... nunca foi uma opção... Tal como nascer não o é! E a violência foi a mesma, a intensidade, o furor, a festa, os choros, as dores, as alegrias, as descobertas!"
As lágrimas continuam a escorrer em silêncio no quarto já envolto na escuridão da noite que agora se levantava, da noite que agora acordava.
Continuavam a combater pela autoria das palavras que nenhum dos dois intervenientes sabiam já de quem era. Se dela, se dele, se das lágrimas que ambos deixavam cair de um modo irreflectido, que caiam de um modo 'incondicionado'.
"Amar-te nunca foi uma opção!
Deixar de te amar também não..."


Fotografia: Badem music video XIII by Mehmet Turgut
(All rights reserved)

Linha do Tempo


Subia as escadas para o quarto quando de repente aconteceu.
Sem avisar. Sem nada que o fizesse adivinhar.
Parou a meio imóvel.
Fechou os olhos de modo a aguçar os restantes sentidos.
E deixou-se ali ficar.
Não se trata do que aconteceu mas sim do que deixou de acontecer.
Ainda de olhos fechados percebeu que o tic-tac tinha cessado, como que cansado da mesma rotina, da mesma engrenagem, do mesmo movimento. Como se decidisse que era tempo de parar.
De um momento para o outro parou.
Não! Não de um momento para o outro mas sim de um segundo para o outro. E com a sua paragem cessaram os minutos que se seguiriam por acumulação e as horas já nem seriam nem boas nem más... não seriam de todo.
Parada a engrenagem bloqueava ali toda a teia de sentidos e de tramas entrelaçadas que o unia a todos os outros.
A linha do tempo nunca foi só uma linha. Essa é uma ilusão. A linha do tempo é feita de novelos de diversas cores, de vários materiais, com várias grossuras. Ao toque todas as linhas do tempo são diferentes mas juntas fazem a mais bela manta de retalhos.
Faziam.
Já não fazem mais.
O que unia todos eles era a simultaneidade, a sucessão, a antecipação. Eram todos os momentos antes e depois. Eram os momentos em si! Os minutos que tinham sido decisivos. Os segundos que tinham permitido o "foi por um triz", as horas que tinham sido as derradeiras.
O tempo parado assemelhava-se-lhe a um quadrado inerte de cimento farpado. Inestético. Sem vida. Amorfo.
Reabriu os olhos devagar.
Pé ante pé subiu os degraus que lhe faltavam e sem esperança que o amanhã chegasse deixou-se ficar preso no momento que nunca foi e que nunca chegará a ser.
Na linha do tempo, nesse enorme novelo enrolado, entrelaçado, a sua era já a linha mais fina em que um sopro bastaria para se quebrar.
Na ironia das palavras apenas pensava que "o meu tempo está a chegar..."


Imagem: Take the Time by Mauricio Gomes
(All rights reserved)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Procurei-te


Estiquei a mão e não te encontrei.
Levantei-me num salto e corri a casa à tua procura.
Procurei-te por todo o lado, corri todos os cantos.
Vesti-me e saí de casa e nas ruas esquecidas de pessoas e de outras
pessoas adormecidas fui te procurar.
Corri meia cidade, fui às prisões e aos hospitais, falei mesmo com a
polícia que me olharam com malícia e deram mil histórias a entender.
Disse-lhes que não fumavas, virei costas e continuei no enlace de ti.
Fui à procura nos jardins e nos bancos já ocupados por outros menos
afortunados.
Procurei-te por becos e vielas,
nas principais artérias
e nos locais mais afastados.
Procurei-te no nosso lugar favorito,
no local do nosso primeiro encontro e cinema da nossa eleição.
Todos eles de portas fechadas e de ti nem visão...
Procurei-te até nascer o dia. Até sentir o sol na pele.
Até a cidade
acordar.
Corri meia cidade para não te encontrar
Cansada parei e apenas ali percebi
Se quisesses que te encontrasse não fugirias de mim!


Imagem: Attention...Red Point by Hüseyin Türk
(All Rights reserved)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Suficientes


Sangrava desmesuradamente, descompassadamente e com a calma que a morte exige.
Uma morte nunca deve ser repentina. Ao menos que dê tempo para uma despedida!
Não telefonou a ninguém, não gritou, não chamou pela ambulância nem pelos bombeiros. Sabia-se ferida de morte. Sabia que não havia solução.
O sangue escorria-lhe pelas mãos, caía em gotas grossas pelos joelhos e daí para formar uma poça no chão. Deu por si a ver o seu sangue a ganhar vida própria, a ganhar direcção. Parecia correr, fugir do seu corpo para se depositar no meio do chão. Amaldiçoou por instantes o próprio sangue. Que sangue era este, este sangue que sempre fora seu, que sempre andara livremente pelo seu corpo, sem quaisquer tipo de limitações, que sempre teve toda a liberdade e que agora a recusava, que agora lhe negava a sua presença por caminhos feitos de veias, que agora se recusava a aquecer o seu corpo, a manter-se fonte de vida invisível?
Foram breves os momentos de ira e de incompreensão. Acabou por aceitar que aquele sangue não era já mais o seu. Assim como aquela vida a abandonava aos poucos e era cada vez mais vida fora de si.
Por momentos sorriu com a ideia de que seria o chão a ganhar nova vida enquanto ela se transformava em matéria inerte e fria no chão.
Sangrava desmesuradamente e enquanto sentia que o seu corpo já pouco aguentaria tentou perdoar a quem lhe tinha feito mal. Descobriu que há crimes que nunca devem ser perdoados... Tentou enfim perdoar a quem a tinha magoado e descobriu que há mágoas que nem um mar de sangue consegue disfarçar.
Por fim e ao ver as últimas gotas de sangue a saírem do seu corpo decidiu que iria apenas lembrar o amor que valia a pena guardar.
Cada gota uma pessoa. E embora não fossem muitas foram as suficientes para estancar o seu sangrar!


Fotografia: I am the drain by Jenni Tapanila
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