quinta-feira, 2 de abril de 2009

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Passou-lhe a vida ao lado e as palavras que ficaram por dizer ficaram
perdidas para sempre no espaço entre os sons, perdidas entre as vogais e
as consoantes, perdidas de sentidos.
Passou-lhe a vida ao lado e foi quando quis de facto falar que a voz lhe
faltou, foi exactamente no momento em que se quis chegar à frente que
lhe faltaram as forças ficando a ver o resto do mundo que passava ao seu
lado sem reparar na sua presença.
Viu-se assim de mão atadas, de pés atados, de palavras atadas.
Viu-se assim limitada e quis maldizer a vida, quis mandar para o inferno
os deuses, quis ir ela própria para o inferno.
Viu-se assim velha e envelhecida, perdida e esquecida e quis poder
voltar atrás, quis escalar as montanhas que olhava de longe, quis cantar
as notas que ficaram por ecoar nos caminhos que percorreu a custo, quis
não ter chorado tanto os amores e ter-se dado a amar mais, quis ter
vivido mais a vida em vez de perder o tempo a negá-la, quis ter cantado
mais em vez de desgastar a voz a amaldiçoar o que só dela poderia
depender para melhorar.
Passou-lhe a vida ao lado e dava-se conta disso no exacto momento em que olhava a morte de frente! Não nos olhos que isso é característica importante demais para atribuir a algo que ceifa vidas de um modo tão arbitrário, mas de frente que o respeito é bonito!
E foi nesse confronto, foi nesse momento em que se encontrava de frente para a morte, em que se encontrava de frente para o passado e para a impossibilidade de futuro que sentiu uma enorme falta de ar, uma aflição medonha, um medo indescritível. Foi nesse exacto momento que de um salto saiu da cama ainda meio azamboada com o sonho que tivera.
Sentada na beira da cama pensou que aquele sonho tinha sido um aviso, que não o podia ignorar.
Estava na altura de agarrar na sua própria com as suas próprias mãos!
Lá fora o dia começava a clarear.
Ela sentindo-se cheia de força sentiu-se ela própria a renascer.
Passado uns minutos voltou a deitar-se dando como terminada a luta que estava a combater com o sono.
Amanhã meteria mãos à obra hoje estava demasiado cansada.
E assim deixou passar mais um dia!


Imagem: Thank God for mental Illness by Petitescargot
(All rights reserved)

4 comentários:

deKruella disse...

Acontece-me algumas vezes...ficar com a enrgia de fazer algo mas deixar sempre para amanhã :)

Isabel disse...

A minha filha e' um espectaculo!!!
beijo
Msmica

PP disse...

sem duvida... :)

PP disse...

ah estou á espera para paginar o livro...