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quarta-feira, 20 de maio de 2009

E por vezes consegue ser tudo



"A memória em si não é nada. Não é bonita nem feia, nem útil nem inútil. Ia a dizer que era o que se quiser, mas nem isso. É uma maneira de dar sentido ao que se vive. É uma coisa que fazemos. Em nome do que trazemos na alma, e por causa do amor, faz sentido fazê-la o melhor que podemos. Agora há alguém que seja capaz de me explicar porque é que eu não sou capaz de me lembrar da cara do meu Amor? A memória é uma coisa que não lembra ao diabo."

in Miguel Esteves Cardoso, "A Aventura da Memória"


Fotografia: don't by Marcin Janocha
(All rights reserved)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Quem


"Quem

Não sei como se ressuscita
no terceiro dia
de cada sílaba
nem se há palavra para voltar
do grande rio do
esquecimento.
Não sei se no terceiro dia
alguém me espera. Ou se
ninguém.
Em cada poema levanto a pedra
em cada poema pergunto quem."

Manuel Alegre


Prendo-me ao não sei como se ressuscita porque ainda só aprendi a levantar-me da vida!
Prendo-me à esperança do terceiro dia porque nos dois primeiros esqueci-me de ter esperança!
Mas em cada poema prendo-me à pedra que tento mudar de sítio!
Mas em cada poema prendo-me à pergunta, prendo-me à palavra e no fim não me deixo prender a ninguém!


Imagem: Petite by Nilgün Kara
(All rights reserved)

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Ainda que Mal



"Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor."

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'



Fotografia: Never completely free by Rachel Lovitt
(All rights reserved)

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos


“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
[...]
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
[...]
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
[...]
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.”

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos
Tabacaria (Excerto)
(Lisboa, 1888-1935)


Fotografia: The confusion of tounges by Deyan Stefanov
(All rights reserved)