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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Ouvidos para escutar

Dá-se conta que não é capaz.
Aos poucos cai-lhe a chapa, faz-se luz e percebe que não é capaz.
É a pressão. A pressão do silêncio. A pressão das palavras a quererem sair. A pressão do silêncio.
Dá-se conta que falha.
Dá-se conta que falhou.
E a impressão contínua da pressão.
Como um comboio que leva à sua frente o que à sua frente se meter.
É a pressão.
E dá-se conta que não é capaz.
Pede ajuda.
Pede ouvidos mais do que conselhos.
Alguém que ouça. Que faça deste verbo ação. Alguém que se interesse.
E depois percebe.
Aos poucos cai-lhe a chapa, faz-se luz e percebe que não precisa.
Por vezes não interessa muito o que se diz.
O que realmente importa é saber que há alguém que pode ouvir.
E dá-se conta que a vida continua.
E dá-se conta que continua a inspirar e a expirar.
Que há ouvidos para escutar
quando as palavras precisarem de sair.
Por agora sente que não tem nada de útil para dizer
mas quando tiver
já sabe com quem contar.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Mundos paralelos

Ele pára. Senta-se. Pensa. E volta a deitar-se.
Adormece e deixa que adormeçam com ele as preocupações.
Não tanto as dele mas as dos outros.
Carrega no corpo o peso de outros corpos e na cama, deitado, esse peso é repartido pelos lençóis e pelo colchão.
Carrega no corpo as questões e as dúvidas.
Pop-ups de likes e de don´t like.
A cabeça gira.
Ele pousa-a na almofada para que pare de girar.
E deixa-se adormecer para deixar de tentar pensar.
São as costas dos outros que lhe pesam nas suas e deixa-se estar.
Na sua mente não há dúvidas.
Sabe o que quer.
São as preocupações dos outros.
Se bem que... com o mal dos outros podemos nós bem.
E de repente o frio
e de repente o calor
e de repente os beijos
os dados e os roubados
e na sua mente não há dúvidas
que quando se ama não se questiona
e não se fazem perguntas
Ele pára. Senta-se. Pensa.
E de repente o frio...

....

Ao longe o frio trespassa, infiltra-se,
deixa marcas
queimaduras
(sim, que estas não se fazem apenas pelo calor)
e tenta-se respirar
e o corpo encarquilha-se numa tentativa de escapar ao frio
e da boca já não saem beijos
já não saem sons
apenas nuvens de fumo branco
apenas o calor que ainda restava dentro do corpo
Ao longe ela anda de um lado para o outro.
Levanta-se.
Faz por não pensar.
Não se quer deixar adormecer
evita os sonhos
E tem no corpo o seu peso
e quer mantê-lo todo
como punição
para se lembrar
Não quer esquecer
De longe chega o frio
e ela de corpo nu
e ela sem respirar
sem conseguir respirar
e cheia de perguntas
Ela anda de um lado para o outro
apenas para não parar
apenas para não pensar
apenas para o seu peso carregar.