sexta-feira, 23 de maio de 2008

Dói"s"-me (by Bruno Nogueira)


"Dói-me. Dói-me muito. E não sei onde. Dói-me quando olho para ti, quando te vejo já ao longe, de cigarro encarcerado entre os teus dedos tão monstruosamente pequeninos. Dói-me saber que só te volto a ver quando já for tarde, e quando a dor se cansar de tanto me cansar. Tenho as mãos suadas e o coração a transpirar de tanto dar voltas e revira-voltas.
Dava tudo para saber estancar o palmo e meio de rasgo que me fazes na carne, não para o fazer, mas só para saber como actuar em caso de extrema urgência, que de urgência já eu vivo.
Dói-me muito, mas não sei onde. Se agora mesmo entrasse nas portas cansadas de um qualquer hospital, ficaria dia e meio para explicar onde e o que me dói. E ainda assim, dia e meio depois, estaria exactamente no mesmo ponto da conversa. Estaria de frente para uma bata branca, curvado de dores, de soro a violar-me o braço e o sangue, e de coração semi-risonho, como uma criança que faz das suas e olha para o lado para que ninguém a veja. "Juro que me dói senhor doutor, juro-lhe." De que vale explicar uma dor a quem nunca a sentiu?
A dor que me causas passa os limites de cinco países juntos.
Apetece-me beber-te a conta-gotas.
Dói-me. Dói-me muito. E quando me disseres onde, vai doer-me muito mais."

Texto de autoria de Bruno Nogueira
(Todos os Direitos reservados)

Mais um texto que gostaria de ter sido eu a escrever... já que os sentimentos estão cá todos!


Fotografia: Amber - Perched by Scott Nichol
(Todos os Direitos reservados)

2 comentários:

bagaco amarelo disse...

Não te preocupes. Ao lê-lo também escreveste. É inevitável. :)

Sandrine disse...

Não te sabia visitante deste cantinho :)

Mas tens razão no que dizes ... ao ler acabamos também por escrever! ;)

Jokinhas e volta sempre