sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Vamos brincar?


Não faço ideia do que seja, dizia ele constantemente. É que não faço mesmo ideia.
Os papeis ia-os rodando como se de um mapa se tratasse.
Eu ainda pensei que fosse mesmo um mapa pois via-se que estava perdido.

Volta não volta pegava na embalagem. Mudava de posição. Coçava as pernas. E voltava a pegar nos papeis.
Eu ia imitando. Pelo menos a parte do mudar de posição. Pelo menos a parte do coçar as pernas, que isto de estar sentado no chão deixa as pernas dormentes.
E estava ali, sentado, à espera.
Novamente os papeis a rodarem. Eu ainda pensei que as letras fossem rodando ao mesmo tempo, que isto de ler de pernas para o ar parece-me ainda mais complicado do que ler a direito. Mas o meu pai sabe tudo por isso para ele deve ser fácil.
Ficámos ali o que me pareceram horas (e pelo ar de chateado da mãe devem ter sido séculos).
Finalmente descobriu o que eu já tinha descoberto há muito (mas não sabia que era isso que ele estava a procurar senão juro que já lhe tinha dito, mas juro mesmo!). O meu pai descobriu que aquela embalagem era só um brinquedo. Um brinquedo normal, sem pilhas, sem botões, que não se mexe, que não se comanda. Onde temos que usar a imaginação e irmos construindo um mundo inteiro de possibilidades. Não havia ciência nenhuma... era só brincar.
Sorri encantado da vida porque agora sim ia começar a brincadeira a sério.
Meti-me de joelhos e olhei para ele ansioso.
Ele atirou os papeis para a caixa e levantou-se.

Acho que se desinteressou do brinquedo...



Fotografia: Legos by Sonicyouth
(Todos os Direitos reservados)

1 comentário:

pp disse...

Não se desinteressou, apenas deu espaço para ele dar asas á imaginação, pelo texto é o que parece.
Acho que pensou que seria mais concludente ser a criança a divagar no espaço e no tempo e descobrir o seu mundo imaginativo e sem limites.

Cool :)