quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Representações


É uma forma de fazer rir
de fazer chorar
de fazer sentir
É o dar corpo ao incorpóreo
e deixarmo-nos levar pela ilusão
é a catarse a tomar acção
Gostava de assim poder fingir
de assim poder fugir
e de assim me deixar iludir
É uma estranha profissão
esta a de se esquecer do seu ser
para ser uma forma de diversão
É a loucura a roçar o limiar
a verdade a querer se transformar
que se dá quando um homem se propõe a actuar
É o querer fazer rir
é o que querer fazer chorar
é uma forma de estar eternamente a recomeçar
É uma forma de se dar
sem nunca se dar a conhecer
sem nunca saber o que o faz sofrer
sem nunca se saber o que o faz feliz
É uma forma de por todos ser conhecido
por alguns ser reconhecido
e de dar sentido ao que deve ser Sentido!


Fotografia: Their Masks by Nicole
(All rights reserved)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Simplesmente por mim


Há dias em que é simplesmente assim
dou por mim a sorrir de uma forma quase ingénua
de uma forma quase infantil
Como se fosse apenas natural
como se nada houvesse para o impedir
como se fosse o mais normal
Há dias em que sorrio
sorrio apenas
sem destino
sem tino
Há dias em que sorrio para mim
em que sorrio por mim
em que quase me sinto feliz.

Fotografia: With a fist and a smile by Gilad Benari
(All rights reserved)

Rotinas


Todos os dias seguem o mesmo pêndulo de rotação horária. Sigo as horas, os minutos, os segundos por meio de compassos orquestrados por um sempre presente e ciente metrónomo. As manhãs que começam sempre à mesma hora. Sempre no mesmo segundo... o imediatamente antes do despertador levar a cabo a sua função. No segundo exactamente antes de o ouvir. Levanto-me já com o peso do resto do dia nas pernas e com o cansaço da semana já impregnado.
Os passos a seguir seguem uma valsa bem demarcada. Sempre dentro de ritmo, sempre dentro do compasso, sempre dentro do tempo.
O caminho para o trabalho, os gestos efectuados, o agendar as tarefas, o organizar da agenda. Trabalho feito, trabalho arquivado. Novo trabalho e isto numa continuação que parece nunca ter fim. A hora de almoço que chega invariavelmente à mesma hora. A mesma hora praticamente para todos. E que nem rebanho bem mandado seguimos todos em direcção à manjedoura para aconchegar o estômago daquilo que já nem sabemos já saborear. Comer acaba por ser mais uma tarefa agendada e destituímos dessa refeição todo e qualquer prazer.
O fim do dia chega sem surpresas. Sem emoções. Chega porque tinha que chegar. Chega porque o sol segue o seu próprio tempo. Porque as horas sucedem-se e por muito que tentemos ir contra isso nada faz parar esse relógio universal de todos conhecido.
À noite as tarefas não mudam e parece que andamos todos às voltas sem saber muito bem o porquê.
Agora que me encontro deitado (sempre para o mesmo lado)dou por mim sem conseguir adormecer. Desta vez as horas sucedem-se mas eu estou de olhos abertos a ver isso acontecer. Os números vão-se sucedendo no visor electrónico de cores avermelhadas e nas paredes com o mesmo tom vou vendo as palavras que penso impressas numa qualquer matéria que não possui nem forma nem peso.
Amanhã um dia igual me espera.
Amanhã pode ser que adormeça pelo cansaço acumulado de uma noite mal dormida...
Amanhã pode ser que seja um novo dia.


Fotografia: The Architect by Nuclear Seasons
(All rights reserved)

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Ainda que Mal



"Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor."

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'



Fotografia: Never completely free by Rachel Lovitt
(All rights reserved)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Mas só por enquanto...


Por enquanto deixo-me ficar assim
que nem peça de decoração
Por enquanto vou-me mantendo assim
em pura reclusão
Por enquanto mas só por enquanto
deixo-me ficar assim quieta
deitada e isolada
por enquanto vou ficando por aqui
até decidir que chegou a altura de partir.


Fotografia: Sahra - Morning Light by Scott Nichol
(All rights reserved)

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Paixões


Lembro-me de a ter entrevistado um dia.
Uma mera entrevista. Perguntas seguidas de respostas. O problema nem foi preparar as perguntas. O problema foi quando recebi as respostas. Num ar quase ecléctico. Num ar quase boémio. Num ar ar de quem nem queria saber. Com o seu próprio ar, como quem nem precisa de respirar.
"Se eu já verdadeiramente me apaixonei? Oh filho... e fiz lá eu outra coisa na vida? Descobri, sem ter precisado de ir ao médico sequer, que afinal não tenho outros órgãos que não o coração. Apaixonei-me tantas vezes que houve alturas em que desconfiei mesmo ter perdido a razão. Apaixonei-me por homens sem escrúpulos e por doutores. Por miúdos com muito mais coluna de que homens adultos. E por adultos que afinal não passaram nunca de miúdos. Homens casados alguns. Olhe viúvos é que não! Apaixonei-me mais vezes do que seria normal e o pior? É que continuam todos guardados no meu coração. Amei-os a todos com o mesmo fervor. A todos com a mesma paixão. A todos com a mesma excitação. Sabe como é estar apaixonada assim? Espero que sim meu filho. Espero que sim. Apaixonei-me, provavelmente, mais vezes do que era realmente preciso. Mas sabe de uma coisa? Na paixão não há medidas. E nunca é demais. Apaixonei-me só pelo olhar. Cheguei mesmo a apaixonar-me sem sequer os conhecer. Apaixonei-me só porque precisava de o fazer. A nenhum deles alguma vez me dei. Mas fui-me dando sempre. Nunca menti e nunca jurei que seria para sempre. Afinal quem o faz chega mesmo a cumprir? Nunca formei família mas é para isso que serve a imaginação.
Apaixonei-me vezes sem conta e alturas houve em que julguei já ter perdido a razão. E sabe que mais meu filho? Descobri que só assim se pode realmente viver."
Aquelas palavras ficaram a tilintar em mim desde então.
Hoje li no jornal o seu obituário. Morreu como gostaria.
Parou-se-lhe o coração.


Fotografia: The confusion of toungues by NuclearSeasons
(All rights reserved)

Em vão...


Tentou em vão agarrar... mal lhe tocou. Mal a sentiu.
Veio-lhe logo à cabeça as imagens dos filmes de Hollywood. Belas histórias de amor e de guerra onde quando tudo se julgava perdido há uma mão que se consegue agarrar. Há um toque que consegue fazer a diferença. Há uma ideia luminosa que a todos consegue salvar.
Ficou especado no meio da rua. De repente sentiu-se candeeiro. Semáforo. Sinal de trânsito. Sentiu-se enraizado no alcatrão. Sentiu-se parte das riscas da passadeira... sentiu-se pisado, ultrapassado, ignorado.
Tentou em vão agarrar e ali ficou de mão estendida com o olhar preso num lugar qualquer do longínquo vazio. Não conseguia apagar da sua mente as imagens tantas vezes repetidas em filmes e a sensação de impotência porque nem um toque houvera. Não conseguia apagar do corpo a sensação de quase sucesso. Não, não lhe tocara... quanto mais agarrá-la.
Deixou-se ficar parado.
Passaram as pessoas que mais tarde voltaram a passar em sentido contrário. Passaram os carros, primeiro apressados depois de luzes acesas e já mais cansados. Passaram os cães presos pelos donos e por todos ignorados. Passaram as crianças felizes de estarem de novo com os pais e os pais já cansados de estarem novamente com as crianças. Passaram as horas mas não passou a sensação de ter falhado. Não a conseguiu agarrar. Nem a conseguiu tocar.
Recomeçou a andar mas sem conseguir evitar olhar de novo para trás... não a viu.
Resignado aceitou que tinha deixado a sua Esperança escapar!


Fotografia: Walking down the street by Blindbird
(All rights reserved)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

...




Desculpem-me pela falta de palavras
pela falta de ideias
pela falta de notícias
desculpem-me pelos maus dias...

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Silêncio


E no silêncio encontro mil palavras
encontro definidas mil despedidas
e encontro as suas razões


Fotografia: Silence by Winterland
(All rights reserved)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Hoje sinto os olhos pesados



Hoje sinto os olhos pesados
são as lágrimas que queriam sair que ainda se encontram presas
ou antes congeladas debaixo das pálpebras
como se não tivessem outro sítio para onde ir
Hoje senti as mãos e os braços tremerem de uma forma descontrolada
quase inusitada
quase despropositada
Numa escala, a existir, de tremores atingi a escala máxima
e deixei-me ficar a tremer
Quem me visse pensaria que os meus braços e mãos nada mais eram do que folhas presas em ramos frágeis a serem fustigados pelo vento
Hoje senti todos os meus nervos à flor da pele
e sinto ainda a pele dorida de tamanha colisão
Hoje apetecia-me ser por todos considerada louca
puder gritar e esbracejar
quiçá mesmo saltar aos gritos
Apetecia-me que fosse considerado normal e fosse reconhecido
gostava que viessem os senhores da bata branca e sem grandes espantos me pusessem a dormir
um sono calmo e profundo
um sono drogado
só para não ter que continuar a existir
Hoje senti-te a falta
só para me dizeres que tudo iria correr bem
só para me fazeres ver o lado positivo
só para me perder nos teus braços e receber os teus miminhos.


Fotografia: Coolwhite by Nilgün Kara
(All rights reserved)