sexta-feira, 22 de junho de 2012

terça-feira, 19 de junho de 2012

Prazo de validade... a expirar

A constatação de que a idade física é tramada vem, normalmente de rompante.
E isto tem uma justificação, é que a nossa idade mental não nos permite pensar muito à frente no tempo...
Até aqui tudo bem.
Hoje fui a uma consulta de gajas (if you know what I mean), consulta à qual eu vou religiosamente todos anos. Lá está... sou agnóstica... e enquanto eu estava convicta que lá tinha ido no início do ano passado a minha médica olha para mim e ri-se... não, não foi no ano passado, foi há dois anos e meio. Silêncio. O meu olhar de pânico a pensar que as doenças mentais já estavam a começar a atacar este lindo cérebro... ela, que já está batida nestas coisas responde ao meu pânico com um "bem, ao menos sei que o tempo não passa a correr só para mim... é para todos", vá de gargalhada (gargalhada dela que eu ainda estava a pensar que ela se tinha enganado a colocar a data da última vez que lá fui). Passámos à sala maravilha e lá estava eu, deitadinha na maca naquela posição extremamente confortável quando ela me pergunta (muito gosta a minha médica de falar) "E então bébés?" e eu "ah e tal... talvez um dia... ou então não... depende da quantidade de dias que deixar passar" (e ri-me contente da minha garçola... Ela para me 'descansar' não vai de modos "Oh, não se preocupe... ainda tem bastante tempo... uns três ou quatro anos para aí".
...
silêncio
...
e de repente só digo... "bem se passarem tão rápido como da última vez que cá vim... já era"...

E pronto... tenho um prazo de validade... mais ou menos de 3/4 anos... vá... não é assim tão mau... podia já ter passado :S

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Ouvidos para escutar

Dá-se conta que não é capaz.
Aos poucos cai-lhe a chapa, faz-se luz e percebe que não é capaz.
É a pressão. A pressão do silêncio. A pressão das palavras a quererem sair. A pressão do silêncio.
Dá-se conta que falha.
Dá-se conta que falhou.
E a impressão contínua da pressão.
Como um comboio que leva à sua frente o que à sua frente se meter.
É a pressão.
E dá-se conta que não é capaz.
Pede ajuda.
Pede ouvidos mais do que conselhos.
Alguém que ouça. Que faça deste verbo ação. Alguém que se interesse.
E depois percebe.
Aos poucos cai-lhe a chapa, faz-se luz e percebe que não precisa.
Por vezes não interessa muito o que se diz.
O que realmente importa é saber que há alguém que pode ouvir.
E dá-se conta que a vida continua.
E dá-se conta que continua a inspirar e a expirar.
Que há ouvidos para escutar
quando as palavras precisarem de sair.
Por agora sente que não tem nada de útil para dizer
mas quando tiver
já sabe com quem contar.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Mundos paralelos

Ele pára. Senta-se. Pensa. E volta a deitar-se.
Adormece e deixa que adormeçam com ele as preocupações.
Não tanto as dele mas as dos outros.
Carrega no corpo o peso de outros corpos e na cama, deitado, esse peso é repartido pelos lençóis e pelo colchão.
Carrega no corpo as questões e as dúvidas.
Pop-ups de likes e de don´t like.
A cabeça gira.
Ele pousa-a na almofada para que pare de girar.
E deixa-se adormecer para deixar de tentar pensar.
São as costas dos outros que lhe pesam nas suas e deixa-se estar.
Na sua mente não há dúvidas.
Sabe o que quer.
São as preocupações dos outros.
Se bem que... com o mal dos outros podemos nós bem.
E de repente o frio
e de repente o calor
e de repente os beijos
os dados e os roubados
e na sua mente não há dúvidas
que quando se ama não se questiona
e não se fazem perguntas
Ele pára. Senta-se. Pensa.
E de repente o frio...

....

Ao longe o frio trespassa, infiltra-se,
deixa marcas
queimaduras
(sim, que estas não se fazem apenas pelo calor)
e tenta-se respirar
e o corpo encarquilha-se numa tentativa de escapar ao frio
e da boca já não saem beijos
já não saem sons
apenas nuvens de fumo branco
apenas o calor que ainda restava dentro do corpo
Ao longe ela anda de um lado para o outro.
Levanta-se.
Faz por não pensar.
Não se quer deixar adormecer
evita os sonhos
E tem no corpo o seu peso
e quer mantê-lo todo
como punição
para se lembrar
Não quer esquecer
De longe chega o frio
e ela de corpo nu
e ela sem respirar
sem conseguir respirar
e cheia de perguntas
Ela anda de um lado para o outro
apenas para não parar
apenas para não pensar
apenas para o seu peso carregar.

...

O cão está com dores...
Do nada manda um ganido que me dói bem fundo na alma.
Junto a minha dor à dele e finjo que é apenas uma
também a mim me apetecia poder exteriorizar como ele o faz...
Mas o cão está com dores, o meu companheiro de uma vida... com dores
tristonho, cabisbaixo, sempre deitado mas sem dormir...
não sei se para me acompanhar ou se eu para o acompanhar
quase uiva de dor
e eu quase choro ao ouvi-lo
E é uma dor que me abre o peito
a minha e a dele
juntas
já não dá para perceber qual a dor que pertence a quem
deito-me ao seu lado e fico a olhá-lo
e ele 'queixa-se' e eu quase que choro...
e sussurro-lhe ao ouvido e de mansinho
"não me podes deixar agora... a dona precisa de ti..."
e ele respira fundo
e eu fico apenas ali
atenta ao seu batimento cardíaco
ao mesmo tempo que ignoro o meu!
O cão está com dores...
e tudo em mim me dói!

terça-feira, 12 de junho de 2012

Descobertas

O FB tem destas coisas boas... ajudam-nos a descobrir boa música!

Descobri o Azevedo Silva e agora é ouvir em repeat!!

Muito bom!!

A quem o partilhou um muito obrigada, um grande beijo e muita saúdinha e da boa :-)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

E no início era o verbo
ou foi o pensamento?
vieram os artigos, os definidos e os que ficaram por definir
vieram os adjectivos, os antónimos e os sinónimos
vieram as palavras
montes delas
e com elas os pensamentos
rios deles
ou vice-versa
que a questão da origem para aqui não interessa
Vieram os pensamentos e as palavras
e o cérebro tornou-se num motor
num labirinto
E chega a doer a rapidez e a força com que as palavras nos seguem
metemo-nos pelo labirinto adentro
na esperança de chegar ao seu fim.
à procura da saída
de uma saída.
Agarramo-nos ao fio de Ariane na esperança que nos guie
que nos ajude
e damos voltas e mais voltas
corremos pelo labirinto que é o nosso cérebro
esbarramos em obstáculos
paredes de vegetação densa, condensada, opaca
florestas inultrapassáveis
damos voltas e mais voltas
voltamos ao ponto de partida
e o fio que era suposto nos guiar
é o mesmo que se entrelaça nos nossos pés
que se enrola e nos faz tropeçar
cair
retiramos os nós
e que nem pugilistas
ficamos por momentos sentados a um canto
a reganhar as forças entretanto perdidas
apenas para nos voltarmos a levantar
e recomeçar a luta.
E no início era o verbo
ou o pensamento
que aqui não nos interessa a origem
apenas a demanda por uma saída!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Deixou-se ficar ali sentada.
Imóvel.
Horas
À espera.
O móvel, de madeira escura, quase preto
igual a tantos outros móveis
em outras tantas casas
Dividido em dois módulos
no alto o telefone com a sua enorme roda, os números já sujos dos dedos descuidados que rodaram a roda da sorte
muitas vezes sem sorte nenhuma
o telefone em cima de um napperon, oferta da avó para o seu enxoval
o enxoval que chegou a ouvir dizer entre janelas que era mal aproveitado
que aquela ia ficar para tia
ela era aquela
e as palavras trocadas entre janelas entravam-lhe por entre os ouvidos
ou pelos ouvidos e ficavam a pairar ente eles
Rapidamente as palavras saíam
mas o napperon ficou
fosse como fosse a ela davam-lhe jeito aquelas coisas
os panos e os lençóis de linho branco
imaculados
bordados
(ela não gostava dos bordados).
mas deixou-se ficar ali sentada
na segunda parte do móvel que tinha mesmo essa função
a de servir a quem nele se quisesse sentar
quem nele quisesse esperar
E ela esperou
esperou pelo telefonema que nunca chegou
pelo toque
pelo aviso
Cansada de esperar, levantou-se num ímpeto
deixou-se ficar de pé
ainda a balouçar das tonturas
e pensou
que a vida era tramada
se se espera... perde-se o momento
se nos levantamos... trememos das pernas...
sorriu
abriu a porta e saiu.


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Bernardo Sassetti




Falha-te o pé e tens o precipício à tua frente
o vazio do espaço que se perde e que não deixa que te agarres
os teus dedos a sentirem o ar que por eles passa
teclas de um piano invisíveis, sem som
deixas o mundo
no mundo a tua marca
indelével
inigualável
e nós ficamos
parados
calados
estupefactos
e perguntamos
Porquê
repetimos a pergunta até à loucura
perdemos já o limiar
perdemos já a noção do razoável
do bom sentido
O que há de razoável numa vida assim?
Qual é a ordem, a justificação
O que responder quando vozes pequenas perguntarem o porquê
quando lágrimas grandes se agarrarem a memórias
memórias privadas
que não saíram em cd
que cada um de nós não irá tocar
não irá ouvir
O que há de razoável no caos
qual é a justificação
morre-se e é isso? e ficamos assim?
farta de mortes sem sentido
de quedas no precipício
de ver que nada faz sentido
E um dia falha-nos o pé
e caímos
e depois nada a dizer
apenas
o Fim!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Espaço, tempo e silêncios

Ele tocou-lhe no ombro com a suavidade de algo que não se quer dizer
que não faz sentido ser-se dito
ou foi ela quem lhe tocou
os gestos encontram-se difusos, confusos, diluídos na memória
tocaram-se
sentiram-se
fizeram do espaço algo indefinido
sem sentido
inexistente
Deixaram-se ficar ali de olhos nos olhos, de lábios nos lábios, de mãos a tocarem-se como se fossem instrumentos musicais
deixaram-se levar pelas notas que a noite ia tocando
ela entoando
ele ouvindo
ou o contrário
que a memória faz-nos sempre partidas e torna-se selectiva
deixaram as palavras e os momentos correrem pelas horas
num sprint em direção a uma meta que nenhum deles sabia existir
Assim são os assuntos da carne
que não se pode falar de coração
(se bem que... o que é o coração que não um pedaço de carne?)
Deixaram-se estar enquanto as horas passavam
e como nos filmes
deixaram essa noite acontecer sabendo que outras não se seguiam
E no dia seguinte ficou o espaço
espesso
definido
a fazer-se presente
e deixaram-se ficar de olhos no horizonte
de lábios secos
e com as mãos nos bolsos
Ficou o silêncio
Mas sem arrependimentos
porque a música não acontece sem pausas
e o silêncio é essencial para que se possa ouvir mais
e o espaço é necessário para se ter mais por onde andar