Por vezes já disse que era algo similar a um parto.
Outras que ultrapassam a vontade própria.
Agora acredito que são espinhos, são facas... não! Espinhos! definitivamente espinhos.
São espinhos que nos saem do corpo, nos rompem as veias, rasgam a pele e vêem ao cimo. Saem. Com alívio. Sem alívio. Com dor. Sem dor.
As palavras têm disto. Têm esta coisa que nos impele, que nos obriga a escrever apenas para não rebentar. Apenas para não rebentarmos. Para não serem espinhos dentro de um corpo aparentemente bom. Aparentemente saudável.
São espinhos. Pontiagudos. Afiados.
Houve alturas em que pensei que era triste não me leres. Hoje agradeço-te por isso. Não me leres é eu não ter que escrever a pensar que o farás. Afinal lês-me todos os dias, não precisas das palavras que escrevo. E hoje é um alívio pensar que não lês. É um alívio dizer que é um alívio. Que acabou. Que podes voltar a respirar. A sorrir. Até mesmo a discutir, mas desta vez pelos motivos certos. O cansaço tomou conta de ti e eu ao teu lado estava exausta. E pedias-me para sorrir e eu tentei. Tantas vezes tentei e tantas vezes não consegui. Porque o teu cansaço era o meu cansaço, porque a tua exasperação era também a minha, porque os obstáculos que se erguiam perante ti duplicavam quando chegavam a mim.
Egoísmo?
Talvez.
Mas todos vivemos os momentos com o nosso corpo, com a nossa cabeça, com os nossos sentimentos. Não os posso negar. Tentei ser forte. Juro que tentei. Tentei sorrir. Juro que tentei. Mas a morte é forte demais, má demais. É sarcástica e deixa-nos de rastos. Não quando chega. Mas todo o caminho que leva, todo o tempo que demora, todos os que arrasta atrás de si. Imponente.
Dizem que a vida consegue ser madrasta. Eu iria mais além e diria que consegue mesmo ser filha da puta. Consegue. De tanta injustiça. De ser tão incoerente. De ser tão aleatória.
Não a morte.
Mas o sofrimento.
Não o de quem vai mas o de quem fica.
Não por ter ido.
Mas pelo processo.
Egoísta?
Que se de dane. Chamem-me de egoísta.
Chamem!
Mas quando o fizerem façam-no na minha cara.
Não se limitem a mandar boquinhas quando chego. Meninas armadas em madres teresas mas que depois não os têm no sítio.
Pessoazinhas que se julgam o máximo.
Chamem mesmo na minha cara.
A olhar-me nos olhos.
E eu aí respondo-vos à letra.
Com todas as letras.
Com todas as palvras.
Com todos os espinhos.
Sim amor, ainda bem que não me lês aqui e que temos todos os dias para o fazer cara a cara.
Porque hoje eu só posso dizer que estou aliviada e feliz por ter chegado finalmente a casa.
E se na repetição das horas perdermos a visão dos minutos?
sussurras-me ao ouvido o passar dos segundos?
domingo, 11 de setembro de 2011
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Apesar...
... de gostar imenso de António Lobo Antunes ando há uns anos a ganhar fôlego para pegar nos últimos livros dele. tenho-os todos. religiosamente guardados. há espera, quem sabe, de fé. à espera que lhes pegue, lhes dê colo, os acaricie.
Sinto que o tempo certo está a chegar.
E se acreditasse em sinais acreditaria que este é mesmo o momento depois de ter 'tropeçado', num sítio que gosto muito, nesta bela citação:
Sinto que o tempo certo está a chegar.
E se acreditasse em sinais acreditaria que este é mesmo o momento depois de ter 'tropeçado', num sítio que gosto muito, nesta bela citação:
"De vez em quando faço uma revisões interiores e lembro-me mal dos anos que passaram: tenho a certeza que só esta manhã comecei a viver e nada sei do mundo, que sou demasiado recente, que o meu tempo não começou ainda. Reparo nas coisas espantado, sem as conhecer, e duvido sinceramente que me pertençam."
.
Variações sobre o silêncio, António Lobo Antunes, Quarto livro de crónicas
E acontece-me sempre isto...
é estranho porque continuo sem compreender porque é que o António escolheu os meus pensamentos e os meus estados de espírito para escrever...
continua a espantar-me...
é estranho porque continuo sem compreender porque é que o António escolheu os meus pensamentos e os meus estados de espírito para escrever...
continua a espantar-me...
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
E volto das 'férias'...
... a sentir-me ainda mais cansada.
Mas é possível?
(pergunta idiota... já disse que estava logo é possível).
Mas e porquê?
Porquê??...
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Porque sinto-me demasiado cansada para escrever...
cansaço
s. m.
1. Fadiga; fraqueza.
2. [Brasil] Hidropisia.
fadiga
s. f.
1. Cansaço que resulta de um esforço qualquer.
2. Trabalho árduo.
i.e.,
a precisar de férias....
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Perdidos no Baú
Encontrei por acaso a lista para a minha casa quando comecei a morar sozinha.
A lista é de julho de 2002 e 'exigia' como requerimentos mínimos de habitabilidade o seguinte:
A lista é de julho de 2002 e 'exigia' como requerimentos mínimos de habitabilidade o seguinte:
Lista:
· Pratos 4
· Copos
· Talheres 4
· Talheres grandes
· Tachos/panelas 4
· Frigideiras 4
· Toalhas mesa
· Panos cozinha
· Vassoura / pá
· Balde / esfregona
· Panos de limpeza / pó / esfregões
· Alguidar médio
· Frigorífico
· Máquina de lavar roupa
· Varinha mágica
· Aspirador
· Lençóis (2x)
· Cobertores (2x)
· Toalhas casa-de-banho (2x)
E isto chegava...
Adivinha-me o pensamento!
É como se fosse um murro no estômago, uma faca nas costas, uma chapada de luva branca. Não faltam frases. Não faltam ditados populares de tão populares que estas acções são. Não faltam palavras. Falta a compreensão.
É como se nos tirassem o tapete debaixo dos pés e ficássemos a pairar, em suspenso, sem céu nem terra, sem ter por onde voar, sem saber voar e sem ter onde cair (a dúvida se ainda se consegue levantar).
É como se nos tirassem a confiança. Tiram-nos a deles e com ela vai a nossa.
E fica-se parada no meio do que está acima e do que fica abaixo.
Fica-se ali. Sem mais.
Racionaliza. Racionaliza. Racionaliza.
Pensamentos positivos. Pensamentos negativos. Pessoas que não se querem preocupar. Vidas que mudam porque as pessoas não querem assumir o seu papel.
'Eu dirijo mas sem dirigir!', 'eu faço sem fazer!'.
Adivinha-me o pensamento para eu poder parar de pensar! Fazes isso?
E eu sem vocação para ler a mente. Atenta. À espera.
Adivinha as minhas necessidades e antecipa-te a elas!
Faz mesmo que não saibas se é isso que tens de fazer!
E eu ainda em suspenso, ainda no meio.
E eu ainda sem saber se subo ou se caio.
Já caí antes. A queda não me preocupa. São os momentos até à queda que me dão vertigens. Que me fazem ter suores frios. Que me fazem sentir a ferver.
A raiva. A incompreensão. A falta de paciência.
Mas sê paciente! Tens que ter paciência!
Adivinha-me o pensamento para eu poder parar de pensar. Faz isso!
E eu a obedecer mas sem, ainda, conseguir ler a mente que dá ordens e que mete pontos de exclamação nos finais das frases. Que mete pontos de exclamação na voz.
E eles como eu a pairar no ar. Entre o que fica acima e o que está em baixo.
No meio. Eu.
Nem acima nem abaixo.
No meio.
A tentar adivinhar o pensamento.
À procura de chão para pousar os pés.
É como se nos tirassem o tapete debaixo dos pés e ficássemos a pairar, em suspenso, sem céu nem terra, sem ter por onde voar, sem saber voar e sem ter onde cair (a dúvida se ainda se consegue levantar).
É como se nos tirassem a confiança. Tiram-nos a deles e com ela vai a nossa.
E fica-se parada no meio do que está acima e do que fica abaixo.
Fica-se ali. Sem mais.
Racionaliza. Racionaliza. Racionaliza.
Pensamentos positivos. Pensamentos negativos. Pessoas que não se querem preocupar. Vidas que mudam porque as pessoas não querem assumir o seu papel.
'Eu dirijo mas sem dirigir!', 'eu faço sem fazer!'.
Adivinha-me o pensamento para eu poder parar de pensar! Fazes isso?
E eu sem vocação para ler a mente. Atenta. À espera.
Adivinha as minhas necessidades e antecipa-te a elas!
Faz mesmo que não saibas se é isso que tens de fazer!
E eu ainda em suspenso, ainda no meio.
E eu ainda sem saber se subo ou se caio.
Já caí antes. A queda não me preocupa. São os momentos até à queda que me dão vertigens. Que me fazem ter suores frios. Que me fazem sentir a ferver.
A raiva. A incompreensão. A falta de paciência.
Mas sê paciente! Tens que ter paciência!
Adivinha-me o pensamento para eu poder parar de pensar. Faz isso!
E eu a obedecer mas sem, ainda, conseguir ler a mente que dá ordens e que mete pontos de exclamação nos finais das frases. Que mete pontos de exclamação na voz.
E eles como eu a pairar no ar. Entre o que fica acima e o que está em baixo.
No meio. Eu.
Nem acima nem abaixo.
No meio.
A tentar adivinhar o pensamento.
À procura de chão para pousar os pés.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
À espera
E
E sempre gostou de começar as frases por "e" como se antes houvesse um mundo inteiro de palavras a anteceder, mantas tecidas de sentidos, contextos, personagens, histórias...
E
E sempre gostou de ver nesta letra uma continuação do antes que se perpetua para o depois, uma alteração continuada, uma continuação alterada
E
E sempre gostou de pensar que os textos nunca foram seus, que as palavras chegavam do nada, que o espaço aguardava as suas palavras, que o mundo (o seu pelo menos) se encontrava em suspenso, apenas à espera
E
E sempre gostou de sentir que atrás há caminho e que não se encontra sozinha a caminhá-lo, que há percursos que sabem melhor quando feitos de olhos fechados apenas com o apoio de um (a)braço amigo, apenas com a sensação de pura confiança
E
E deixa-se ficar por aqui... assim... em suspenso... com um E na ponta da língua, com um E em perpétuo movimento, em início de acção...
E sempre gostou de começar as frases por "e" como se antes houvesse um mundo inteiro de palavras a anteceder, mantas tecidas de sentidos, contextos, personagens, histórias...
E
E sempre gostou de ver nesta letra uma continuação do antes que se perpetua para o depois, uma alteração continuada, uma continuação alterada
E
E sempre gostou de pensar que os textos nunca foram seus, que as palavras chegavam do nada, que o espaço aguardava as suas palavras, que o mundo (o seu pelo menos) se encontrava em suspenso, apenas à espera
E
E sempre gostou de sentir que atrás há caminho e que não se encontra sozinha a caminhá-lo, que há percursos que sabem melhor quando feitos de olhos fechados apenas com o apoio de um (a)braço amigo, apenas com a sensação de pura confiança
E
E deixa-se ficar por aqui... assim... em suspenso... com um E na ponta da língua, com um E em perpétuo movimento, em início de acção...
E depois queixam-se
Uma pessoa a precisar, porque já há muito que não vai lá e qual é a resposta quando tentamos marcar o 'encontro'?....
... Só no fim de Agosto...
Então está bem... eu espero!
Mas depois não se queixem...
... Só no fim de Agosto...
Então está bem... eu espero!
Mas depois não se queixem...
segunda-feira, 18 de julho de 2011
O silêncio que custa ouvir
Na festa de anos do sobrinho mais novo o divertimento da mãe, que ao contrário do neto já tinha idade para ter juízo, massacra a mana porque tem que arranjar o armário descaído da cozinha ao ponto de eu mandá-la parar. Eu que não sou nada disso. Eu que não falo assim com a minha mãe. Eu que a fumar um cigarro já não a conseguia ouvir mais. Eu a dizer "oh mãe, para de massacrar a minha irmã". A minha irmã que é filha dela. As mães têm o direito de massacrar. Eu já não aguentava. A minha mana é uma boa filha. Aguenta. Tem paciência. Eu não. Sou diferente. Não tenho. Devia. Mas não tenho. Depois à volta da mesa massacra-me a mim. Porque estou gorda. Porque sempre fui gorda. Sempre fui a mais cheia da família. Que já era cheiinha na adolescência. Eu que na adolescência tinha a alcunha de 'tábua', lisa à frente e lisa atrás. Magra. Afinal agora gorda. Afinal agora sempre fui. Mudam-se as conversas para os partos e eu que nasci na cama do quarto. Que nem dei tempo de ir para a sala de partos. Que nasci ao fim do dia. Eu que nasci de manhã. Que tenho uma certidão de nascimento que diz isso. Que fui trocada por uma outra irmã. Até compreendo. Ninguém é obrigado a saber a hora e o peso de todos os filhos. Já e uma sorte quando acertam na data de aniversário e na idade. Mas eu sem paciência. Eu que não sou a mana. Que não sou assim. Que não ando assim. Sem paciência. Volta a questão do peso. Do que há a mais. E que como mal. E que tenho que comer melhor. Eu que como bem. Eu que como muitas verduras. Eu sem paciência. Eu a levantar-me da mesa e ir para o sofá. Porque sem paciência. Depois porque temos que fazer a reciclagem da mana. Eu sem dizer palavra. Eu mesmo assim a ouvir. Eu sem paciência. Sem pinga de paciência. A viagem de carro para casa um suplício. Uma dor no estômago. Sangue frio a correr-me pelas veias. A cabeça que me dói. O silêncio que custa a ouvir. E eu sem paciência.
E depois a vida. Madrasta. Maldita. Cruel. Que nos vai tirando aqueles de quem gostamos. Que vai pedindo emprestado aqueles de quem os nossos gostam. E eu sem saber o que fazer. Impotente. Sem reacção. A perder a noção do que é certo. A ganhar noção de que há cada vez mais o errado. E mesmo assim sem paciência. E depois a morte. Que espreita curiosa. Que anda sempre a espreitar. Que nem uma sombra num dia de verão. A pairar. E eu a começar a ficar sem forças. Sem reacção. Sem paciência.
Sem palavras.
E depois a vida. Madrasta. Maldita. Cruel. Que nos vai tirando aqueles de quem gostamos. Que vai pedindo emprestado aqueles de quem os nossos gostam. E eu sem saber o que fazer. Impotente. Sem reacção. A perder a noção do que é certo. A ganhar noção de que há cada vez mais o errado. E mesmo assim sem paciência. E depois a morte. Que espreita curiosa. Que anda sempre a espreitar. Que nem uma sombra num dia de verão. A pairar. E eu a começar a ficar sem forças. Sem reacção. Sem paciência.
Sem palavras.
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