quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Narciso




Sempre se despedia quando chegava a altura de mudar.
Despedia-se dos locais e das paisagens, dos caminhos trilhados, dos trilhos desbravados e guardava esses momentos de despedida como memórias do passado.
Despedia-se dos locais, das coisas e das acções... mas nunca das pessoas.
Despedia-se do riacho onde amiúde saciava a sede (mas sempre de olhos fechados! Não que receasse apaixonar-se pelo seu reflexo como se julga que diz o mito, mas porque não queria correr o risco de se reencontrar!), despedia-se do sino da igreja que fora substituído por um imóvel altifalante de barulho estridente e metalizado. Guardava na memória as horas que passara à espera que fosse o sino a dar as horas, mesmo que apenas embalado pelo vento.
Despedia-se do café onde vira as horas passar, não das pessoas... nunca das pessoas, mas da mesa onde se sentava (sempre a mesma, que o Homem é um animal de hábitos e há forças contra as quais é escusado lutar!), da cadeira que ocupava e que lhe suportava o peso quando até para ele era peso a mais para aguentar.
Despedia-se do riso das crianças e das suas brincadeiras (mas nunca das crianças!) que pareciam ficar loucas quando tocava para o intervalo. Despedia-se do cheiro do pão com manteiga e do leite com chocolate que era devorado no intervalo de jogos desenhados a giz no chão (o giz que habilmente surripiavam nas contas da Professora).
Despedia-se das pedras da calçada que em tempos idos foram calcadas por homens suados do calor dos dias e que tantas vezes tinham por ele sido calcorreadas.
Despedia-se para poder continuar a andar por caminhos errantes que nunca sentiu serem os errados.
Em cada novo lugar tornava-se aprendiz de um novo ofício e aluno atento dos novos hábitos a adoptar, dos novos risos a escutar, dos novos sinos a soar.
Soube desde sempre que era nesta errância que se encontrava o seu constante despertar.
Nunca foi uma questão de se redescobrir mas sempre a intenção de se reinventar.
E por cada riacho que passava parava sempre para se refrescar.
Sempre de olhos fechados...
Afinal o Homem é um animal de hábitos e há forças contra as quais não vale mesmo a pena lutar!


Imagem: Narciso d'amore intermedio by Nuvola
(All Rights reserved)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Parcas Palavras



Sou de parcas palavras
das faladas, das confrontadas
as palavras das respostas às perguntas difíceis,
as palavras que estão à defensiva
as palavras que elevam a auto-estima
Sou de parcas palavras
e sou assim no dia-a-dia
sem meias-verdades ou meias-mentiras
sem embelezar e sem poesia
Palavras pretas no papel branco
palavras que se elevam no meio
palavras que marcam o fim
Sou de parcas palavras
e nem sempre falo as mais correctas
nem sempre falo as certas
e arrependo-me amiúde do que ficou por falar no final
arrependo-me das palavras que disse mal
e das que foram mal ditas
das que vieram sem contexto
e das que ficaram escritas
das palavras que passaram do pensamento
e que num sopro transformaram-se em gente
transformaram-se em actos
transformaram-se em vida
Sou de parcas palavras
e por vezes sinto-me uma miúda
que procura as palavras certas
e que se limita a escutar
que se limita a querer inventar
as palavras que mais ninguém possa escutar
os sentidos que mais ninguém consegue compreender
Sou de parcas palavras
e por vezes gostava de não ter que falar
e por vezes gostava que apenas o meu olhar
vos fizesse fazer o que mil palavras não conseguiram
que parem e comecem a Escutar!


Fotografia: Hope by Martin Stranka
(All Rights reserved)

Há dias em que não vale mesmo a pena....




Tentámos!
E até íamos cheios de boa vontade. Ele cansadito e eu com a neurita mas íamos.

Sair do trabalho a correr, passear o cão nas calmas (há que não apressar a criatura no seu melhor passeio do dia) tomar banho a correr, inventar qualquer coisa para comer e bumbas... pé no acelerador chegar mesmo em cima da hora e lá fomos nós em direcção ao King para ver a Valsa com Bashir.
Depois de um café bebido à velocidade da luz lá entrámos na sala e ....

.... e passados 15 minutos lá saímos nós da sala!

"Lamentamos mas não vai haver sessão! O ar condicionado rebentou. Dirijam-se por favor às bilheteiras para receberem o dinheiro do bilhete!"

Eu por mim ficava... tinha o meu leque!

Só posso dizer que este filme está mesmo difícil de ver...

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Há coisas do diabo....

Há coisas que nos atacam de repente.
Estamos muito bem e de repente BUM! É uma bomba.
Coisas banais, de todos os dias, que todos sabem...

blogues que parecem existir para nos lembrar das frases que gostaríamos de ter sido a nós a escrever, das aventuras que gostaríamos de ter tido e dos livros que gostaríamos de ter lido... devagar! :)

Cheguei à conclusão que nunca li nada de Mia Couto e senti-me extremamente burra... como é possível que nunca tenha comprado nenhum livro, pedido emprestado, lido???

Se calhar em vez da mala (linda, diga-se de passagem) que me ofereci atempadamente pelos anos deveria era ter comprado um livro...

Como é que é possível???? ....

O sal da Língua



"Escuta, escuta: tenho ainda


uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai

salvar o mundo, não mudará

a vida de ninguém - mas quem

é hoje capaz de salvar o mundo

ou apenas mudar o sentido

da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.

É coisa pouca, como a chuvinha

que vem vindo devagar.

São três, quatro palavras, pouco

mais. Palavras que te quero confiar,

para que não se extinga o seu lume,

o seu lume breve.

Palavras que muito amei,

que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua."


Eugénio de Andrade

segunda-feira, 20 de julho de 2009

...


...
venham as palavras, os espaços e os silêncios
venham as mãos, os braços e os dedos
venham os abraços... os apertados
venham os beijos... os sentidos
venham os sorrisos e esses dentes destemidos
venham os punhos fechados e os olhos serrados
venha a coragem de mudar o dia
venha a serenidade de aproveitar até uma despedida
venham sempre... nunca deixem de vir
Sintam sempre... nunca deixem de sentir
e quando se sentirem a amargurar
quando se sentirem a mudar
venham e juntos iremos lutar
Mas venham sempre e nunca deixem de vir
por muito que mude nunca deixarei de vos esperar!


Fotografia: Friends by Nuno Ramos
(All Rights reserved)

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Estou...






... cansada!
Mas tão cansada que vocês nem imaginam...











Quem poderia recusar?




Se gostaria?

Gostaria pois!
Quem não gostaria?
Quem poderia negar?
Quem seria louco a esse ponto?
Obviamente que gostaria
e não conheço ninguém que desse uma resposta diferente
Obviamente que toda a gente é única
e que eu não conheço toda a gente
e que do particular não se pode nunca extrair o universal
mas lógicas à parte
Quem o poderia recusar?
Obviamente que todos haveriam de gostar
e eu que nem sou de modas tenho que admitir
que iria adorar.
Se gostaria?
Obviamente que gostaria!
O que há, aliás, para não gostar?

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Ou então é mesmo a Inveja!



O dinheiro não é estupidificante
mas sem dúvida consegue fazer com as pessoas tenham atitudes estúpidas!



Fotografia: Money Money by Meppol
(All rights reserved)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Era uma vez...


Começa-se a querer aos poucos
sem se dar por isso
de mansinho
Começa sem nos darmos conta que começou
sem pensar sequer que é o início
sem perceber que já nos abarcou
E de repente estamos já em alto mar
Sentimo-nos à deriva
e tudo parece uma lição de vida
Queremos tudo absorver
ao máximo tudo aproveitar
e desta vez, sem medos, tudo abraçar!
Pode-se culpar a Primavera tardia
que desta vez trouxe mais do que alergias
pode-se até culpar a distracção
Mas a verdade encontra-se escondida até do coração.
E se formos bem a ver
não interessam os motivos e os caminhos que os fizeram encontrar
o que interessa é que começou sem se perceber
e agora há que ao máximo tudo aproveitar!

Fototgrafia: Three breath III by Huseyin Turk
(All Rights reserved)