quinta-feira, 9 de abril de 2009

Devagar para não magoar



Desceu as escadas devagar. Toda a sua atenção presa a cada passo que dava. De orelhas arrebitadas (expressão que a fazia rir pois sempre a lembrava de cães patuscos de orelhas pontiagudas) lá ia dando atenção a cada gemer da madeira que reclamava por uma noite descansada e isenta de pés descalços a sorrateiramente pisarem-lhe as costas.
Era-lhe inevitável dar características humanas às coisas que a rodeavam, só assim podia sentir-se contextualizada, podia fazer parte do quadro.
O pai sempre lhe dissera que era importante estar enquadrada, estar contextualizada. Seguir rotinas, imitar padrões. Quando era mais pequena estas conversas metiam-lhe medo. Estar enquadrada era para ela ser quadro pendurado numa parede. Ser algo esquecido. Seguir padrões já era algo mais divertido e que a fazia sonhar. Imaginava-se a correr desenfreadamente atrás de padrões... axadrezados, listados... invariavelmente ria-se como só uma criança sabe rir até ao momento em que reparava que o pai continuava a falar com ela com um ar muito sério e compenetrado e ela voltava ao abanar da cabeça afirmativamente ao mesmo tempo em que automaticamente lhe saia da boca um "Sim pai!".
As conversas terminavam sempre do mesmo modo, para ela sempre enigmático, em que o pai com um olhar triste (demasiado triste pensava ela) lhe dizia "Não queres ficar como a mamã pois não?!" e ela acenava que não com a cabeça mas sem perceber porque concordara sempre com o pai.
Da mãe tinha a imagem de uma mulher feliz, despreocupada, sorridente. Capaz também ela de correr atrás de padrões, capaz de se imaginar quadro, capaz de ter medo de magoar as costas dos degraus de madeira, de suavemente tocar no móvel da entrada quando entrava em casa e desejar-lhe bom noite, capaz de dar festinhas no sofá enquanto nele se encontrava deitada. Percebeu cedo que herdara todas estas coisas da mãe e desde sempre fizera tudo para o esconder do pai.
Durante anos continuou a acenar que não ao pai e a fingir ser algo completamente diferente da mãe.
Deixou de fingir no dia em que foi na madeira que enquadrava o pai que deu as últimas festas. Terminou quando acariciou aquele rectângulo de madeira maciça pela última vez como se da pele do pai se tratasse.
Passados muitos anos percebeu que afinal não tinha terminado.
Ali estava ela, de camisa de dormir até aos pés e o cabelo já todo grisalho a descer as escadas com cuidado e doçura para não magoar as costas dos degraus de madeira, a acariciar delicadamente o vão da escada, a sonhar que corria atrás de padrões e a sentir-se feliz por nunca ter sido enquadrada num!


Fotografia: Alice in the Midnight Game by Zhang Jingna
(All rights reserved)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

...



Passou-lhe a vida ao lado e as palavras que ficaram por dizer ficaram
perdidas para sempre no espaço entre os sons, perdidas entre as vogais e
as consoantes, perdidas de sentidos.
Passou-lhe a vida ao lado e foi quando quis de facto falar que a voz lhe
faltou, foi exactamente no momento em que se quis chegar à frente que
lhe faltaram as forças ficando a ver o resto do mundo que passava ao seu
lado sem reparar na sua presença.
Viu-se assim de mão atadas, de pés atados, de palavras atadas.
Viu-se assim limitada e quis maldizer a vida, quis mandar para o inferno
os deuses, quis ir ela própria para o inferno.
Viu-se assim velha e envelhecida, perdida e esquecida e quis poder
voltar atrás, quis escalar as montanhas que olhava de longe, quis cantar
as notas que ficaram por ecoar nos caminhos que percorreu a custo, quis
não ter chorado tanto os amores e ter-se dado a amar mais, quis ter
vivido mais a vida em vez de perder o tempo a negá-la, quis ter cantado
mais em vez de desgastar a voz a amaldiçoar o que só dela poderia
depender para melhorar.
Passou-lhe a vida ao lado e dava-se conta disso no exacto momento em que olhava a morte de frente! Não nos olhos que isso é característica importante demais para atribuir a algo que ceifa vidas de um modo tão arbitrário, mas de frente que o respeito é bonito!
E foi nesse confronto, foi nesse momento em que se encontrava de frente para a morte, em que se encontrava de frente para o passado e para a impossibilidade de futuro que sentiu uma enorme falta de ar, uma aflição medonha, um medo indescritível. Foi nesse exacto momento que de um salto saiu da cama ainda meio azamboada com o sonho que tivera.
Sentada na beira da cama pensou que aquele sonho tinha sido um aviso, que não o podia ignorar.
Estava na altura de agarrar na sua própria com as suas próprias mãos!
Lá fora o dia começava a clarear.
Ela sentindo-se cheia de força sentiu-se ela própria a renascer.
Passado uns minutos voltou a deitar-se dando como terminada a luta que estava a combater com o sono.
Amanhã meteria mãos à obra hoje estava demasiado cansada.
E assim deixou passar mais um dia!


Imagem: Thank God for mental Illness by Petitescargot
(All rights reserved)

De intenções...


Se o que conta é mesmo a intenção
o que vem directamente do coração
então sorriem e deliciem-se
com um texto maravilhoso
embelezado por uma bela fotografia!
Se o que conta é a intenção
então pasmem-se com a perfeição
maravilhem-se com o indizível
e congratulem a sua escriba
Se o que conta é a intenção
fechem os olhos e sintam a emoção
de terem sido abraçados com tamanha sofreguidão
por um texto que nem foi começado
mas que teve essa intenção!


Fotografia: Sila II by Mehmet Turgut
(All rights reserved)

terça-feira, 24 de março de 2009

E pronto...



E pronto... depois de exorcizar os males e as irritações
e de mandar socos no ar
Inspira-se
Expira-se
e continua-se de cabeça erguida!


Fotografia: My favorite Boxing photo by Perry Gallagher
(All rights reserved)

segunda-feira, 23 de março de 2009

E só porque me irrita mesmo!



Irrita-me
Irrita-me a falta de coluna
o ser invertebrado que deixou de Ser
que é definido pelo Ter
pela inveja de não Ser
Irrita-me
Mas irrita-me mesmo
esta forma menor de se achar superior
esta mania de demarcar linhas
como se fronteiras fossem daí nascer
Irrita-me
Mas deixa-me mesmo possessa
esta forma obscena
de não conseguir ser fontal
de nunca chegar a dizer
Irrita-me
Irrita-me e chega-me a dar um certo gozo
porque quem perde as energias nesta forma mesquinha
anda a perder tempo que é precioso
E embora me irrite
depois acaba por me passar
Mas a vocês meus invertebrados
continua sempre a inveja a pesar!

quarta-feira, 18 de março de 2009

Casos práticos


Adicionar imagem

Ando numa tentativa de ser mais optimista, mais positiva e de não partir telemóveis contra a parede de ânimo tão leve!
Um esforço, que tem sido continuado, em berrar menos com o cão porque o comando está com as pilhas fracas ou de gritar com ele simplesmente porque sim! Ando a esforçar-me mesmo para não comer a comida toda existente em casa depois de partir o telemóvel e de ter gritado com o cão. E sendo assim decidi o seguinte: Os dias que se seguem vão ser tramados. De enorme tensão! Eu quase diria de terror duro (pelo menos para mim claro está) e eu decidi (até porque não vou estar com o cão à mão de semear nem com as minhas paredes à mão de semear do telemóvel) "Racionalizar" as coisas para assim destituí-las de importância exacerbada. Ou seja ver o lado positivo e negativo!!

Primeiro caso prático: Dois dias de curso (O novo Código do Trabalho - Alterações e implicações) de uma área que não domino e que versa apenas sobre as alterações ao novo Código (do Trabalho) que implica o conhecimento profundo do Anterior e que a menina não possui. Parte negativa: vou andar às aranhas e vou passar 14 horas da minha vida (duração da acção) em puro silêncio! Parte positiva: o almoço está incluído e estou com fé na existência de coffee-break com bastante coffee e que a break seja significativa!
Segundo caso prático:
Na Sexta-feira, e já de malas feitas, partir em direcção às terras do menino para conhecer (e dar-me a conhecer pl') os progenitores e amigos próximos da zona.
Parte negativa: o ter que ir! Parte positiva: o ir! Parte mesmo negativa: o querer ir ao mesmo tempo que não quero (o que me vai valer umas boas sessões deitada no divã)
Terceiro caso prático:
Comentei com o menino que o que gostava mesmo de fazer era... (e lembrei-me agora de uma anedota excelente mas que não posso contar aqui) cantar num coro. É verdade meus amigos! Até contactei um coro (amador claro está) para saber como se prestavam provas e tudo...
parte negativa: o ter tido a infeliz ideia de ter comentado com o menino parte muito negativa: ele estar a "obrigar-me" a ir parte mesmo muito muito negativa: um dos amigos do menino que vou conhecer este fim-de-semana é músico/maestro... cheira-me que não vou poder estar de boca fechada e sossegadinha no meu canto como gosto. parte positiva: eu depois digo se fui aceite no coro quando (e se) prestar provas. Por isso até agora é só partes negativas!

Quarto caso prático: Estou mesmo farta de estar no trabalho, só me apetecia estar em casa, tomar um banhinho e meter as pernas para cima! parte negativa: estou aqui parte positiva: se eu estivesse em casa não tinha escrito isto. parte mesmo muito negativa: eu escrevi isto!


E peço desculpa à Nikky por lhe roubar assim a imagem mas se não fosse o teu post e esta imagem eu não teria escrito nada hoje. (desculpa pelos insultos que vais receber.... de certeza que o pessoal não te vai agradecer!!!)
E dito isto vou ter uma pequena conversa com o cão e já venho!

sexta-feira, 13 de março de 2009

Escolhas



Se escrever um livro fosse tarefa fácil como ter um filho já o teria escrito!
Que me venham com as pedras e não se esqueçam dos telhados de vidro
que me venham com acusações
mas essas é que são essas e nem vale a pena discussões
Comecemos pelo princípio e no fim concordarão comigo!
Desejam-nos uma hora pequenina
um parto sem dores
e no fim as que não sofreram sorriem
e as que sofreram dizem que o resultado compensa os horrores
Ora um Livro é mais complicado!
Não há horas pequeninas e por vezes dura mesmo anos
o parto é sempre doloroso
e o "Parabéns" não é garantido
Dizem que mal nasce o amor é incondicional
os defeitos foi buscá-los à família do pai
e tudo o que é bom da nossa parte vai
Ora um Livro é todo nosso
não há culpas a deitar aos outros
a não ser "uma questão de gostos"
E embora nos custe a constatar
lá porque o "parimos" não implica que dele fossemos gostar
E depois há ainda outra questão que me faz muita confusão
é que ao fim de 9 meses já se sabe que está pronto
rebenta as águas que o separa do mundo
e vem todo contente criar um tumulto
Mas o artista tem sempre a dúvida
de saber com a devida exactidão
quando a obra está terminada
e quando está terminada a labuta
Mas o que me faz ainda não o ter escrito
é mesmo a parte de o fazer
é que um livro custa
mas um filho dá prazer!

terça-feira, 10 de março de 2009

Venham novos dias


Tenho saudades do Verão e dos dias de praia
de sentir a pele salgada
de sentir a pele bronzeada
de me deixar adormecer ao sol!

segunda-feira, 9 de março de 2009

O Lenço vermelho


Hoje ofereceram-me um lenço vermelho!
Não veio embrulhado e nunca o irei usar.
Mas ofereceram-me um lenço vermelho.
Um lenço que há imenso tempo andava a cobiçar
um lenço que me fizesse sentir com mais cor
com mais vida, mais faladora e mais divertida
um lenço vermelho que me fizesse sentir parte do meio
Um lenço que me desse a coragem que o vermelho implica
que me desse parte da sua vida
Hoje ofereceram-me um lenço vermelho que nunca terei nas mãos
um lenço que nunca sentirei a textura
que nunca me irá proteger do vento
mas que era mesmo o lenço que eu queria!
Hoje ofereceram-me um lenço vermelho
porque o lenço lhe chamou a atenção
e porque o fez lembrar de mim
E quando ele pergunta se o que conta mesmo é a intenção
A minha resposta só poderia mesmo ser
Claro que sim!


Fotografia: The red scarf by Praful
(All rights reserved)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Desperdício



E de repente faz sentido
passam os anos e faz sentido
faz sentido o tique que já é parte da fisionomia de um rosto
que em tempos dava gosto
faz sentido a troca de insultos
em voz alta nos transportes públicos
porque vale tudo para colmatar o silêncio
faz sentido fazermos o gesto do "és mas é maluco!"
e o outro nem ver nisso um insulto
faz sentido o deixar de ouvir
o deixar de querer compreender
o deixar de querer
faz sentido o não conversar
e se é para debater
debate-se a compra de um novo sofá
a compra de uma nova mobília
para dar nova cor à vida
passam os anos e começa a fazer sentido
passa o tempo e parece que perdemos os sentidos
passa uma vida inteira e arrependemo-nos
Arrependemo-nos de não ter discutido
de não ter ouvido
de não ter ripostado ao insulto
de termos sido chamados de malucos
de não ter agarrado
de não termos mordido
de não termos beijado
de não termos sonhado
E de repente nada faz sentido
e de repente a vida soa-nos a desperdício
e sonhamos ter feito tudo diferente!


Fotografia: Characters by Toko
(All rights reserved)