terça-feira, 10 de março de 2009

Venham novos dias


Tenho saudades do Verão e dos dias de praia
de sentir a pele salgada
de sentir a pele bronzeada
de me deixar adormecer ao sol!

segunda-feira, 9 de março de 2009

O Lenço vermelho


Hoje ofereceram-me um lenço vermelho!
Não veio embrulhado e nunca o irei usar.
Mas ofereceram-me um lenço vermelho.
Um lenço que há imenso tempo andava a cobiçar
um lenço que me fizesse sentir com mais cor
com mais vida, mais faladora e mais divertida
um lenço vermelho que me fizesse sentir parte do meio
Um lenço que me desse a coragem que o vermelho implica
que me desse parte da sua vida
Hoje ofereceram-me um lenço vermelho que nunca terei nas mãos
um lenço que nunca sentirei a textura
que nunca me irá proteger do vento
mas que era mesmo o lenço que eu queria!
Hoje ofereceram-me um lenço vermelho
porque o lenço lhe chamou a atenção
e porque o fez lembrar de mim
E quando ele pergunta se o que conta mesmo é a intenção
A minha resposta só poderia mesmo ser
Claro que sim!


Fotografia: The red scarf by Praful
(All rights reserved)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Desperdício



E de repente faz sentido
passam os anos e faz sentido
faz sentido o tique que já é parte da fisionomia de um rosto
que em tempos dava gosto
faz sentido a troca de insultos
em voz alta nos transportes públicos
porque vale tudo para colmatar o silêncio
faz sentido fazermos o gesto do "és mas é maluco!"
e o outro nem ver nisso um insulto
faz sentido o deixar de ouvir
o deixar de querer compreender
o deixar de querer
faz sentido o não conversar
e se é para debater
debate-se a compra de um novo sofá
a compra de uma nova mobília
para dar nova cor à vida
passam os anos e começa a fazer sentido
passa o tempo e parece que perdemos os sentidos
passa uma vida inteira e arrependemo-nos
Arrependemo-nos de não ter discutido
de não ter ouvido
de não ter ripostado ao insulto
de termos sido chamados de malucos
de não ter agarrado
de não termos mordido
de não termos beijado
de não termos sonhado
E de repente nada faz sentido
e de repente a vida soa-nos a desperdício
e sonhamos ter feito tudo diferente!


Fotografia: Characters by Toko
(All rights reserved)

Sussurros

Hoje não te procurei
Dei por isso quando o tempo já desfilava na passadeira do dia
Hoje não te procurei
Não quero com isso dizer que já não te quero
que te perdi
ou mesmo que me perdi de ti
mas hoje não te procurei
Com a cabeça cheia de palavras a querer sair
e o peito cheio de coisas que ainda não consigo definir
cheguei e não te procurei
E se puder admitir baixinho
como num sussurro feito delicadamente ao ouvido
se pudesse transmitir esta doçura às palavras
eu até te diria que hoje se pudesse
nem te procurava!


Fotografia: Momentaneous Power II by Sue Anna Joe
(All rights reserved)

quarta-feira, 4 de março de 2009

...


e poderia escrever tudo e mesmo assim não conseguir que tudo tivesse sentido


Imagem: Vieira da Silva, L’Issue Lumineuse, 1983-86

terça-feira, 3 de março de 2009

Perdi


Perdi a noção do mundo no exacto momento em que o olhei de frente.
Perdi a noção do que significava a partir do momento em que o interroguei
Perdi a perspectiva quando o olhei de alto
e quando olhei para ele por baixo senti-me por ele esmagado
Olhei para o mundo dos parapeitos do meu prédio
a sentir os seus braços invisíveis a tocarem-me
a segurarem-me
a impedirem-me de cair
mas continuei a andar, continuei a olhar
E foi quando o medo chegou
quando a ingenuidade me abandonou
que me obriguei a parar de olhar o mundo de frente
em que perdi noção do que significava
em que perdi noção do que importava
em que ganhei a noção que já não acreditava!


Fotografia: Ali Teheran by Huseyin Turk
(All rights reserved)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Sentei-me


Sentei-me.
Sentei-me por sentir a incapacidade em mim a aumentar.
A incapacidade de continuar. A incapacidade de me manter de pé. A incapacidade de continuar a respirar.
Sentei-me.
Sentei-me porque de repente senti que tudo à minha volta parava e sentava-se também.
Porque de repente senti que o mundo parava o seu movimento e se eu continuasse a andar o caos iria nos inundar.
Sentei-me.
Sentei-me porque senti que assim iria salvar o mundo do eterno burburinho, da confusão sem mais senão, de tudo o que haveria de mal.
Sentei-me.
Sentei-me porque sabia no íntimo que assim acabava com a possibilidade, assim acabava com a impossibilidade, com os números infinitos e com os pares tão temidos.
Sentei-me.
Sentei-me devagar por sentir em mim a incapacidade de continuar.
Sentei-me porque finalmente precisava de descansar, precisava do distanciamento do andamento, precisava da perspectiva do olhar parado, precisava de me sentir ausente, precisava de me sentir ponto de partida para mais uma maratona, para mais uma corrida.
Respirei fundo enquanto fechava os olhos... respirei fundo enquanto os voltei a abrir... respirei fundo enquanto me levantava decidida a de novo partir.
Andei e até hoje nunca mais parei.
Andei sem pensar mais em me sentar.
Andei com a certeza de que quando precisasse não me iria mais sentar...
se é para descansar então que fique deitado.


Fotografia: Sitting, waiting, wishing by Toko
(All rights reserved)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Há noites assim!


Em que a companhia é uma boa companhia,
em que o ambiente convida
e em que o espectáculo faz apetecer por mais!!


"A Tempestade pela Companhia do Chapitô

A última criação da Companhia do Chapitô é uma comédia visual baseada na peça de William Shakespeare.

É uma história de magia, monstros e espíritos numa ilha encantada num mar distante. Conta o que aconteceu nesse mundo de sonho, quando a inocência, o amor, o medo, a malvadez e a vingança entram em choque sob o poder de um grande mágico.

A peça mais visual de William Shakespeare

Autoria: Criação Colectiva Companhia do Chapitô
Encenação: John Mowat
Interpretação: Jorge Cruz, Marta Cerqueira, Tiago Viegas"


A não perder e só até dia 01 de Março!!!


Divirtam-se!!! :)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Números inteiros


Passa por aí!
Passa por saber que o amanhã é uma incógnita
e que já que se tem que viver
que se faça, também, por o merecer.
Passa por sabermos se queremos mesmo ser felizes
ou se é uma mera teimosia que almejamos desde petizes
como quem anseia por um gelado
e depois afinal já está enjoado
Passa por saber o que realmente estamos dispostos a fazer
e até que ponto estamos dispostos a ir
e se a disposição não é uma mera ilusão
se não passa de uma fraca intenção
Passa por aí!
Por saber quando lutar
por saber quando rir
por saber quando parar.
Passa por aí!
Por amar sem limites
por sentir sem barreiras
por saber conviver paredes-meias.
Passa por saber partilhar
por saber perdoar
por saber até esquecer.
Passa por saber falar
por saber o silêncio apreciar
por saber liberdade dar.
Passa por se ser honesto
por se ser inteiro
por andar direito.
Passa por não se perder a coluna
por aprender a ultrapassar as lacunas
por aprender a rir com os erros.
Passa por aí... Por sermos sempre um número inteiro!


Fotografia: You with numbers by anemic-cinema
(All rights reserved)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

E o meu cavalo só falava Inglês...


João e Maria
(Sivuca-Chico Buarque)

"Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você
Além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock
Para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedéu e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não

Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá desse quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no meu mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim."

Simplesmente porque me faz sentir de novo criança!



Imagem: Francisco Buarque de Holanda by Reinaldo Lima
(All rights reserved)