terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

E o meu cavalo só falava Inglês...


João e Maria
(Sivuca-Chico Buarque)

"Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você
Além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock
Para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedéu e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não

Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá desse quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no meu mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim."

Simplesmente porque me faz sentir de novo criança!



Imagem: Francisco Buarque de Holanda by Reinaldo Lima
(All rights reserved)

Saudades do indeterminado

Corro a cidade sem saber se é a ti que procuro ou se é de ti que fujo... tal é a confusão que as voltas me fazem, tal é a repetição dos prédios, dos lugares. Lugares comuns porque repetiram-se vezes demais nos meus olhos e já não deixam lugar para a imaginação.
Corro a cidade com a mesma determinação com que corri do campo, com que fugi das árvores e dos silêncios, dos verdes e dos tons acastanhados. A mesma determinação que agora me embacia os sentidos, os mesmos silêncios que me deixam saudades dos verdes, os mesmos tons acastanhados que me deixam saudades do indeterminado, da ausência dos semáforos que me gritam aos olhos que devo andar, que devo parar.
Corro a cidade e trago no nariz os mil cheiros que me inundam no caminho, trago os carros e os seus escapes, trago as casas e os seus jantares, trago as pessoas e todas as suas vidas presas no nariz.
Corro a cidade e trago na boca os sabores das lojas, o sabor dos placards, o sabor dos copos que me acompanharam na vida, dos martinis e dos gins tónicos, dos vinhos bebidos sem racismos e sem distinções.
Corro a cidade com a mesma determinação de quem corre a maratona... à espera de ver a fita ao fim da corrida.
À espera que alguém me diga que não faz mal parar!


Fotografia: The City by Night by Guy Boden
(All rights reserved)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Quem


"Quem

Não sei como se ressuscita
no terceiro dia
de cada sílaba
nem se há palavra para voltar
do grande rio do
esquecimento.
Não sei se no terceiro dia
alguém me espera. Ou se
ninguém.
Em cada poema levanto a pedra
em cada poema pergunto quem."

Manuel Alegre


Prendo-me ao não sei como se ressuscita porque ainda só aprendi a levantar-me da vida!
Prendo-me à esperança do terceiro dia porque nos dois primeiros esqueci-me de ter esperança!
Mas em cada poema prendo-me à pedra que tento mudar de sítio!
Mas em cada poema prendo-me à pergunta, prendo-me à palavra e no fim não me deixo prender a ninguém!


Imagem: Petite by Nilgün Kara
(All rights reserved)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Monólogo


Carrega-me ao colo
carrega-me no peito
mas não me vejas como um peso que é preciso carregar
Traz-me contigo no peito
na mão que se cruza com a minha
num qualquer órgão
pode até ser no coração
mas não me consideres como um 'senão'
Aprende a olhar-me de frente
aprende a encarar o mundo nos olhos
aprende a dizer que sim
aprende a acreditar em ti
mas fá-lo sempre com um olhar que sai de dentro
fá-lo sempre com os sentimentos que foram sentidos
fá-lo sempre sem pensar no perigo
fá-lo numa forma de arriscar sem riscar
sem apagar
sem te anulares
Traz-te contigo
mas não te carregues
Não és peso
não és sombra
não és um 'não'
tenta ser apenas o que trazes no coração.


Fotografia: Reflection by Zhang Jingna
(All rights reserved)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Vital


"Era vital. Para mim era vital!"
Passou a mão pelo cabelo ainda molhado do banho que acabara de tomar e enquanto sorria pensava que era vital. Tinha sido vital.
Riu-se e quase se assustou por ouvir o eco da sua gargalhada ecoar pela casa que parecia nunca estar cheia o suficiente e que ela achava que já se encontrava preenchida demais. Riu-se pela ideia, pelo conceito, pelo "então é vital porquê? Será mesmo uma questão de morte ou de vida?". Riu-se porque não era. Riu-se porque sentia que era sim senhor e que ninguém ousasse cruzar-se no seu caminho para dizer que não.
Sentou-se no sofá e desejou por momentos não ter deixado de fumar (há alturas em que os momentos seriam perfeitos apenas e com um cigarro aceso na mão). Embora soubesse que não era uma questão de vida (não no sentido em que a mesma se pode perder), a verdade é que a sua qualidade de vida dependia daquele momento, tinha dependido da honestidade daquele momento. E isso alterava, só por si, tudo o resto.
Podia até nem ter sido vital, pensou, mas que para si tinha tido um elevado grau de importância isso ninguém o podia negar e agora, depois do acto consumado, depois de tudo tratado, sentiu-se aliviada porque sentiu que desta vez fez o mais correcto a fazer!


Fotografia: Nadia by Huseyin Turk
(All rights reserved)

A transbordar de qualquer coisa...


No meio das inseguranças que chegam mesmo a caracterizar uma vida inteira de devaneios e de intermitências para-se na acalmia dos sentimentos, na suavidade de uma calma que nos deixa drogados, intoxicados, a transbordar de qualquer coisa que não sabemos nomear mas que nos acalma, que nos pousa a mão no ombro e nos empurra e nos faz sentar, que nos tira o pé do acelerador e nos faz abrandar, que nos faz acreditar.


Fotografia: Translation by Gilad Benari
(All rights reserved)

Amores perfeitos


Fomos os dois à farmácia e às tantas o farmacêutico diz-nos enquanto apontava para uma cesta de verga cheia de pequenos vasos:
"A nossa farmácia faz hoje quatro anos! Querem um amor perfeito?"
E eu limitei-me a pensar que já o tinha ao meu lado!!!

Mas pelo sim pelo não trouxe o da farmácia também!!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O que é!


E finalmente
Senti-te como se a minha função fosse apenas essa
Cheirei-te como forma de te guardar
Vi-te como já há muito não te via
Ouvi-te como tanto me apraz ouvir-te
Saboreei-te porque era o mais lógico a fazer!
E finalmente
Senti-te como forma de te guardar
Cheirei-te apenas para abrir os olhos e poder ver-te
Vi-te apenas para dar cor ao teu falar
Ouvi-te a dizer que gostavas de mim
e saboreei-te apenas para descobrir que
com ou sem antecipação és muito melhor assim
ao pé de mim!!!


Fotografia: CBL - Study XXIII By Pedro Inácio
(All rights reserved)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sexto Sentido ou uma forma de antecipação!


Sinto-te
Cheiro-te
Vejo-te
Ouço-te
Saboreio-te
Deixo os meus sentidos vaguearem pelos teus
Misturarem-se com os teus
Perderem-se com os teus
Apenas para os saber meus
Apenas para voltar a encontrá-los
Mas ...
sentir-te
cheirar-te
ver-te
ouvir-te
e saborear-te
é trazer sempre algo mais
é vir sempre com uma nova riqueza
é como se ganhasse um sexto sentido
e é por isso que
sentir
cheirar
ver
ouvir
e saborear
ganhou uma nova forma neste meu novo sentido que é o meu Pensar
Porque é no pensamento que eu nos vejo aos dois
é no pensamento que agora tu estando longe eu te sinto perto
é no pensamento que ouço a tua música numa tentativa de te ouvir
e é no pensamento que novamente
sentimo-nos
cheiramo-nos
vemo-nos
ouvimo-nos
e saboreamo-nos!


Imagem: The Senses by Bruyne
(All rights reserved)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

E desta vez temos mesmo muita pena!!


A ideia era boa!
A viagem já apetecia!
A estadia já estava meio tratada e iríamos ter um dois em um.
O Manel Cruz estaria à nossa espera sentado (obrigatoriedade do próprio Festival) e tudo correria bem!
O próprio dia estava de feição e embora a companhia fosse inteiramente feminina (mania das neves destes tipos) a verdade é que seria dia 14 de Fevereiro e eu estava feliz por isso também!
Afinal os bilhetes esgotaram e vou ficar mesmo por aqui...
Acho que vou propor um jantar com a companhia do costume (Martini, o belo do queijo e um vinho suave) com os cds do Manel a tocar....
Quando ouvir algumas músicas sei que irei desejar lá estar, mas fica a promessa para um outro dia.

Entretanto:


Tu não tens de Mudar

Se o tens de ouvir tens de o fazer
E o mundo diz tu tens de mudar
Só não lavou as tuas mãos
mas tens as mãos do mundo para lavar
afasta-te um pouco mais
e dorme em paz que tu não tens
de dar o teu sorriso assim
esgotando o teu juízo assim
Tu não tens de mudar!
Quem te quer mudar não te quer conhecer
Tu não tens de o fazer!

Eu não tenho nada meu
pois tudo o que era bom foi na corrente do ter
e agora dei-me um dia para ser feliz
para ver que eu nunca vou ter o mundo na minha mão
Não tenhas pena de mim
agora...
meus dias já não são de ouro
dantes sim, existia um problema
agora todos nós somos actores de cinema
e escondemo-nos bem
dos olhos que o mundo tem
mas toda a gente nos vê
só não nos ouve ninguém!

Tu não tens de ver
Tu não tens sequer de amar
Tu só vais achar que vês,
quando ao sabor da tua lei
O amor fizer de ti seu Rei
para sempre!