Dos fantasmas que nos acompanham apenas pudemos guardar deles o mais valioso a guardar. Há que colocar os medos de lado, enfrentá-los de frente e acima de tudo não mostrar o medo. Descobri o que sempre soube. Há demasiados fantasmas na minha vida. Demasiados mesmo. E sempre fugi deles. E quando o medo era aterrador e me petrificava limitava-me a fechar os olhos enquanto tremia de medo apenas ansiando por um abraço que me protegesse, por uma voz que me acalmasse. Os meus fantasmas perseguem-me por muito que eu evite pensar neles. E não precisa ser de noite e eu estar na cama para vê-los. Basta estar distraída e logo me vêm os piores da estripe. Os que realmente me magoam. Os que me ferem de morte. São estes os fantasmas que eu andei uma vida a evitar e outra a acumular. Os que me acompanham nas noites frias já não me fazem grande diferença, excepto fazerem um bocado de companhia. São os fantasmas do passado que me magoam. Magoam-me fazendo-me lembrar e magoam-me quando condicionam a minha forma de agir. Ao longo dos anos tenho sido um bicho-do-mato, mas um bicho feroz. Que ataca muitas vezes antes de ser atacado e que assim perde a possibilidade de ser acarinhado. Que foge quando vêm atrás e que depois, quando desistem desata a correr quando é já tarde de mais. Um bicho que logo à primeira tenta afastar e que só muito dificilmente se dá. Que diz que não quer apenas para não se deixar 'tocar', para não se deixar 'amar'. Os meus fantasmas perseguem-me e alturas houve em que era eu quem não os deixava partir. Chegou a altura de os enfrentar, fechar o armário e começar a andar. Dentro de mim guardo o que é bom de se guardar e uso isso para continuar a caminhar!
Fotografia: Ophelia by Zemotion (All rights reserved)
"Sou um guardador de rebanhos. O rebanho é os meus pensamentos E os meus pensamentos são todos sensações. Penso com os olhos e com os ouvidos E com as mãos e os pés E com o nariz e a boca. Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la E comer um fruto é saber-lhe o sentido. Por isso quando num dia de calor Me sinto triste de gozá-lo tanto. E me deito ao comprido na erva, E fecho os olhos quentes, Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, Sei a verdade e sou feliz. "
Fernando Pessoa, in "O Guardador de Rebanhos - Poema IX"
Fotografia: StephM3 by Lawrencew (All rights reserved)
É assim como uma espécie de vulcão em erupção... mas sem entrar em actividade. Quer dizer activo mas sem estar... Naqueles momentos precedentes, onde está tudo latente, onde está tudo quase, onde se encontra na iminência. É como estar num semáforo parado e sabermos que o verde está quase a cair. O estarmos já a fazer o ponto de embraiagem mas ainda sem arrancar. O estar à beira do abismo e apenas um passo bastar para marcar a diferença. A diferença entre estar vivo e estar morto. É nesse limbo que me encontro. Não entre a decisão do ser e não ser. As questões ontológicas nem sempre são as que mais me preocupam. Mas é nesse momento de passagem que eu me encontro. Entre o latente e a erupção. Entre o parado e o arranque. Entre um passo e uma queda vertiginosa. Sinto-te em mim. Dentro de mim. Sinto-te a ocupar o lugar que é meu. Sinto-te aos poucos a alastrares, a ganhares território, a ganhares velocidade, forma, matéria, peso, volume e ao mesmo tempo sinto que é um processo que ainda não se encontra terminado. Que precisa de acabar para re-começar. Sinto-te dentro de mim em pequenas ondas de actividade sísmica, em pequenos tremores, em pequenos picos. Degrau a degrau vais subindo as escadas do meu ser e eu impávida deixo-te entrar, deixo-te conquistar, deixo-me quieta à espera do que virá. Eu sei que mais cedo ou mais tarde o teu processo irá terminar e quando chegar o momento certo, o segundo mais preciso e também o mais precioso sei que aí, nesse exacto momento, irás me dar um qualquer sinal que se irá reflectir numa vontade urgente, emergente, de fazer aquilo que queres que eu faça. Quando esse momento chegar irei encontrar-me exactamente onde me encontro agora e começarei a escrever as palavras que me começarás a ditar.
Fotografia: Window by Lawrencew (All Rights reserved)
Amassaram-me o espírito cansaram-me o corpo e agora encontro-me assim Nua de palavras despida de frases sem consoantes ou vogais sem forma de comunicação sem conseguir chamar-te à atenção sem conseguir dizer que preciso de ti Violaram-me e tiraram-me todos os sinónimos retiraram-me os antónimos e deixaram-me sem voz e eu fiquei só sem te conseguir explicar que era dos teus braços que estava a precisar Fiquei sem palavras fiquei sem conceitos e no silêncio me deito à espera das palavras que hão-de chegar. (02/10/2008)
Fotografia: Suffocate by Deyan Stefanov (All Rights reserved)
Há dias em que perguntarem-nos como estamos e ficarem à espera da resposta faz toda a diferença! Há dias em que a ausência da pergunta faz uma diferença abismal!
Fotografia: Further by UltraViolet (All rights reserved)
Fôssemos todos sinais de trânsito semáforos de preferência Onde o Verde é mesmo verde e percebemos logo à primeira que é para avançar Onde o amarelo é sempre amarelo e diz-nos para não arriscar E onde o vermelho só quer dizer uma coisa que temos mesmo que parar!
Imagem: Desiree y el semaforo by Marta Altieri (All rights reserved)
São pequenas coisas pequenos andamentos pequenos movimentos pequenas diferenças que fazem a vida valer a pena Mas as coisas temos que ser nós a encontrar os andamentos nós a percorrer os movimentos nós a fazer para que esse valor lhe consigamos dar São pequenas coisas pequenos andamentos pequenos movimentos pequenas diferenças Que nos fazem sonhar!
Fotografia: StephanieAnne Ghosts nº 1 by Scott Nichol (All rights reserved)