quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Cansa-me esta ânsia...



Cansa-me a espera dos momentos inadiáveis
a fluidez dos momentos que me fogem
Cansa-me o ter as mãos cheias de nada
e nos braços as marcas dos abraços que ainda me doem
Cansa-me a dor das alegrias passadas
e o eterno passar das marcas
Cansam-me os olhares de soslaio
e ao mesmo tempo quero-os em mim centrados
Cansa-me a vida e a morte
e o desejar a todos mais sorte
Cansam-me os cafés e as pessoas
e a repetição eterna das horas
Cansam-me os relógios e os ócios
e por vezes só me apetece mesmo fechar os olhos
Cansa-me este perpétuo cansaço
e só anseio pelo teu regaço
Anseio pela vida plenamente vivida
pela tristeza transformada em alegria
Anseio pelas paredes que caem
e por campos verdes que à minha frente se abrem
Anseio pelo respirar profundo
por sair do fundo
Anseio pelas palavras
por novas estradas
e por novos caminhos
Anseio por uma nova poesia
por uma nova escrita
por novas ideologias
Anseio por ti e por mim
por tudo o que nunca terá fim
Anseio pela ânsia de ansiar
por uma humanidade que há-de vingar
por alguém que possa compreender
Cansa-me esta ânsia que me assola
mas é este o cansaço que me consola
e por isso deixo-me ficar assim...


Fotografia: Dream about falling down by bucz
(All rights reserved)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

...


Hoje a cidade apresenta-se-me assim...
indefinida... escura... esquecida
Os carros parados parecem ter esquecido a sua finalidade
e deixam-se ficar assim... imóveis... incógnitos
Os sinais de transito deixam-se enraizar julgando ser árvores
e os Stops e os trânsitos proibidos
deixaram de vez de fazer qualquer sentido...


Fotografia: For hoped by UltraViolett
(All rights reserved)

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Por uma questão...




Não é por uma questão de orgulho, de raça, de firmeza.
Muito menos é por uma questão de honra, de rectidão ou de ser dona da certeza.
Não é por me encontrar numa busca interminável pela verdade ou de abominar a mentira.
Nem sei se será mesmo uma Questão ou apenas mera miopia.
Não é por sentimentos nobres ou para encontrar nobreza nos sentimentos.
Não é por tentar um todo à custa de remendos.
Não é por tentar quebrar recordes ou por simplesmente ultrapassar barreiras.
Nem sei se será uma questão de maneiras.
Não é para me certificar do que fiz.
Não é para gravar na pedra o que se diz.
Não é por tentar ser feliz.
Será mesmo apenas uma questão de medo,
um profundo e incomensurável medo
de ter a minha vida desenhada a giz.
Uma fobia que é mentira
que aldraba toda e qualquer anologia
que eu possa sequer pensar fazer.
Uma vertigem sem medida
de uma altura sem vista
de uma queda que estou prestes a ter.
Não é por uma questão de coragem, de força ou valentia
Mas mais por uma questão de necessidade
A necessidade de dar uma hipótese à Vida!



Fotografia: Redemption by Zemotion
(All rights reserved)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Adão e Eva




Vamos trocar os papéis desta vez
Tu trincas a maçã
e eu vou tentar resistir ao pecado!



Fotografia: Burden by Deyan Stefanov
(All rights reserved)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

...




Trazia na carteira a moeda de outros tempos.
Moeda velha e suja, sem valor, obsoleta. Mas era a sua moeda.
Numa carteira de pele velha que, em caso de dúvida, demonstrava bem a idade do seu dono. Uma carteira velha. Bastante usada. E tal como a moeda sem aparente utilidade. Mas era a sua carteira! E nela encontrava-se a sua moeda!
Uma moeda que o lembrava dos tempos idos. Dos tempos em que aquela não era única moeda. Dos tempos em que a carteira era, de facto, usada... utilizada.
Com o tempo ficaram as marcas dos fatos que já não usava. Das reuniões a que já não ia. Até mesmo o cheiro do móvel de mogno da entrada da sua casa onde todos os dias pousava a carteira quando chegava.
Agora continha uma moeda que já mais ninguém usava. Um Bilhete de Identidade que já não tinha validade e papeis que na rua encontrava.
Pedaços de jornais que o agarravam a um tempo memorial... que o ligavam a memórias que já eram intemporais.
Admitia no cair da noite que sentia que a sua cabeça já não era a mesma e por vezes confundia as datas, os nomes, as pessoas, as ruas... chegava mesmo a confundir-se a ele próprio quando via o seu reflexo numa qualquer montra e sentia o impulso de puxar da sua carteira, para buscar a sua moeda e...
Tinha uma fotografia de um filho pequenino e que agora já casado, bem na vida... Um Doutor! Sorria quando dele falava mas eram as lágrimas que lhe escorriam quando à noite dele se lembrava que mais doíam. Já há muito que não o via e dele tinha apenas aquela fotografia e as memórias que se confundiam. Histórias que já nem sabia bem se eram as suas se eram as dele e por vezes punha-se mesmo a pensar que memórias teria o filho.
Tinha a vida naquela carteira e se alguém lhe fizesse a maldita pergunta ele nem por um segundo hesitaria:
"Leva-me a Vida... porque dela já só tenho esta carteira!"


Fotografia: Homeless by Isahn
(All rights reserved)

Closed doors


Se me fechares a porta
se a trancares por dentro
se te recusares a abrir...
Compreendes que não a vou forçar
percebes se não a tentar destrancar
entendes que nada te vou pedir!
Se a fechaste e a chave guardaste
se é detrás dela que te queres esconder
e se for apenas assim que consegues sobreviver
Compreendes que eu nada vá fazer!
Se foste tu que decidiste
se foste tu que uma porta fechada me impingiste
então nem uma explicação me podes exigir
Se me fechares a porta
eu não vou insistir
Se a trancares por dentro
eu vou-me embora como o vento
se te recusares a abrir
eu já não vou lá estar a assistir
Porque se me fechares a porta
nem uma janela eu vou abrir!


Fotografia: Door by Benjamim J. Burkhart
(All rights reserved)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Dar a ilusão...


Vamos dançar!
Vamos dar a ilusão que sabemos voar
Vamos apenas fingir...
e por favor... não paremos por aí!
Vem e mostra-me os caminhos
vem e mostra-me os sorrisos
vem e ajuda-me a lembrar
Vem, vamos dançar!
em pontas consigo andar
sei que te vou impressionar!
Vem, vamos dançar!
No fim sei que te vou conseguir amarrar
e que não vais mais querer me largar!
Vem, vamos dançar...
vamos apenas fingir
que fazemos um lindíssimo par!



Fotografia: Bondage ballet by John Tisbury
(All rights reserved)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Pain


"There are no shortcuts in life or in love. This pain must be felt, the alternative it's much worse. It's what makes us special, what makes us beautiful, what makes us worthy! It's the pain of how we love. But that pain is accompanied by something else, isn't it? Hope! With your pain there is hope, and that is where you are, somewhere between agony, optimism and prayer.
So you're Human!
You're alive!
And that is what we have!"

(In B&S)


Fotografia: Sadness2 by Lidia Estrada
(All rights reserved)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Tempo


Hoje estou como o tempo.
Ou será o tempo que está como eu estou?
Nunca percebi quem influenciava quem...
Estas questões são sempre (i?)relevantes e sempre me ocuparam grande parte do tempo, terá sido talvez por isso que acabei por tirar um curso de Filosofia. Ou por isso ou por não ter conseguido entrar em Direito. Lá está! Esta é mais uma das questões à qual não consigo encontrar reposta.
Como a de saber se ouço música triste porque estou triste ou se é por ouvir música triste que fico (ainda mais) triste.
Tento não pensar muito nisto. Esta é uma das vantagens da idade que vai aumentando na parte de trás do Bilhete de identidade (e que de não sei quantos em não sei quantos anos se vai notando também na fotografia que se encontra à frente). Às tantas perdemos o interesse ou a curiosidade (ou pura e simplesmente a paciência) de tentar encontrar resposta para estas questões.
Mas hoje estou como o tempo. Ora acinzentada e a sentir-me enublada ora com uns raios de sol a despoletar.
Ora a sentir na pele o calor que me assola ora a sentir um arrepio agradável de frio.
Hoje estou assim, como o tempo!
Ou então é mesmo o tempo que está como eu!
Não sei!


Fotografia: Feel the silence by Nilgün Kara
(All rights reserved)

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Hoje vi-te


Hoje vi-te
Olhei para trás e vi-te
e tu nem sorriste
Segui em frente e não consegui sorrir-te
Hoje vi-te
vi impregnado no teu corpo as recordações de todos os dias
vi as discussões e as alegrias
vi tudo o que já não queria ver
e senti-me a morrer
Hoje vi-te
e tinhas no corpo o cheiro de todas as recordações
o cheiro de todas as emoções
e senti-me a desvanecer
Hoje vi-te
e tinhas no olhar o meu olhar reflectido
e nele tudo o que já não tinha sentido
e percebi que precisava de renascer
Hoje vi-te
e ao ver-te percebi
que estava a olhar para mim!


Fotografia: Almod II by Mehmet Turgut
(All rights reserved)