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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Despedida


"Trazer-te no peito é uma bagagem muito pesada para transportar."
Ficou ainda de boca entreaberta como quem ainda tem mais a dizer, eu penso que fosse mesmo o cansaço, fosse o ganhar fôlego para continuar. Por vezes para conseguir transportar as coisas de dentro para fora, trazê-las do mundo imaterial do pensamento para o mundo concreto da palavra falada é uma tarefa difícil. É dar vida, é tornar as coisas reais e isso tem que doer, tem que cansar.
"Não é que não te queira trazer comigo. Não é que possa sequer não o fazer... mas não no coração. É um órgão muito fraco para lhe pedir tal tarefa. Talvez num outro lado..."
Parou e ficou a olhar lentamente para o seu próprio corpo como quem procura uma solução para a guerra no mundo. Dei por mim a seguir o seu olhar e a pensar se ela pensaria me 'carregar' na perna que tantas vezes acariciei, ou nos braços que tantas vezes tive nos meus... na barriga? Sim, como ela adorava sentir a minha mão a passar ao de leve na barriga, ou na nuca, ou no lóbulo da orelha que tantas vezes beijei... Ela ia olhando para o corpo à procura de soluções, à procura de espaço e eu fiquei em suspenso sem saber onde seria o meu lugar mas definitivamente a sentir que não era ali.
Sentia-me a ocupar espaço a mais, sem espaço para estar. O ar entrava-me pelas narinas e sabia a gelo tal era o frio que sentia ao constatar que não tinha espaço, ao constatar que não podia mais respirar, que não me podia mais mexer, que nem a conseguia mais ver...
"Mas trazer-te no peito é uma bagagem muito pesada para transportar... trazer-te aqui é negar-me a transportar mais alguém, é fechar portas, é fechar janelas, é fingir para mim própria e dizer-me que não posso mais amar..."
Não lhe respondi e senti que nem o podia fazer... imóvel continuei a ouvir as palavras que ela teimava em dizer... percebi que as precisava de dizer mesmo sem saber que eu as estava a ouvir...
"No peito não! A ti não! Não posso... vou trazer o nosso amor, todo, todos os nossos dias, todas as nossas loucuras, todas as nossas discussões. Vou guardar o teu bolo de chocolate queimado e o cheiro que teimou em não sair da nossa casa, vou guardar as gargalhadas, vou até guardar as lágrimas mas não te posso mais trazer no peito. Vou guardar o teu cheiro como se fosse o meu mas não posso mais trazer-te no peito. Vou amar-te como sempre te amei mas no peito não posso... é um peso demasiadamente grande. Vou-te amar sempre meu amor mas não te posso trazer mais comigo. Chegou a hora de te deixar partir..."
Levantou-se e virou-me as costas... não deixou flores, nunca as trouxe, sabia que eu detestava esse ritual mórbido. E eu deixei-me ficar e optei por partir.
Percebi que durante aquele tempo todo ela sempre me sentiu, eu era a ausência feita presença e o que ela me quis dizer eu de repente percebi... "Amor foste tu quem morreste e tenho que continuar sem ti. Deixa-me ser feliz!"


Fotografia: Dreamspace reloaded 36 by Denis Olivier
(All rights reserved)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Por instantes


Por instantes tive-te na mão.
Não porque fosses coisa. Não porque fosses dado adquirido. Mas simplesmente porque o verbo Ser era conjugado na primeira pessoa do plural. Porque simplesmente éramos! E por esse motivo julguei ter-te na mão.
Não era bem na mão... era mais no colo.
Por instantes julguei ter-te no colo. Deitado sobre mim, aninhado em mim, junto a mim. Tinha-te ali à distância de um inspirar e sentia-te com a força de um sorriso.
E como era bom saber-te ali, perto, junto, dentro.
Por instantes julguei ter-te nos braços.
Julguei ter-te nos abraços, nos rodopios, nas danças, nas gargalhadas. Nas lutas desgrenhadas. Num porto de abrigo. Eras o meu ninho e no entanto era eu quem julgava ter-te nos meus braços. Talvez porque sempre que os abria eram os teus que vinham de encontro aos meus, eram os teus passos que se faziam ouvir e eu de braços estendidos esperava (e esperava sempre o tempo que fosse preciso) para sentir-te de novo.
Por instantes julguei ter-te no peito.
Quando era eu quem me deixava adormecer no teu depois de te teres saciado no meu. Julgava ter-te na união dos nossos peitos porque depois de unidos nada os fazia separar, porque os ritmos eram sincronizados.
Por instantes parei.
E solta de braços e colos, de mãos vazias em frente aos meus olhos que já não encontraram mais os teus percebi.
Por instantes percebi que foi um erro nos verbos.
Eu nunca te tive
tu nunca me tiveste
Mas por instantes amei-te
e por instantes amaste-me
até que o sonho terminasse
e até que cada um de nós
no seu mundo acordasse
...
e por momentos fui feliz!


Fotografia: Present to past by Sarah Bernhard
(All rights reserved)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Procurar-te


Procurar-te não é tarefa fácil.
Ando de mapa na mão e embora encontre a seta que diz "Você está aqui!" não vejo nas ruas mais próximas outra que me diga onde estás.
Pousei já os mapas e rendi-me a estas novas tecnologias que me fazem ficar surda de tanto ruído, de tanta confusão de tanto facilitismo e nem o GPS me dá informações plausíveis. Vê lá tu que me diz "Destino desconhecido" como se tu fosses um destino. Como se me fosses desconhecido. Conheci-te toda a minha vida. Tenho em mim os teus cheiros e os teus toques. Tenho-te em mim. Sei que sim. Mas não consigo encontrar-te e procurar-te torna-se a cada dia que passa uma busca interminável digna de cavaleiros que em tempos preocuparam-se em encontrar o graal.
A minha tarefa é bem mais árdua, bem mais difícil.
É encontrar-te.
Continuo a palmilhar as artérias desta cidade que é já sem coração porque eu perdi o meu quando te perdi.
Continuo a procurar por ti desesperadamente para voltar a dar à cidade que já nos viu aos dois um novo palpitar, um novo pulsar, uma nova vida.
Procuro-te nos becos que de tão cinzentos acabaram por ficar sem saída e é por isso que tenho que voltar atrás, sempre a voltar atrás ao ponto de partida. Ao ponto da nossa despedida que não foi um Adeus mas sim um até já e quando me virei não te vi mais e quando tu te viraste já não me encontraste.
Anseio pelos teus braços enquanto corro que nem uma maluca pelas estradas fora, a ignorar os sinais que me mandam parar, a ignorar as pessoas que me dizem que me posso magoar, contra ordens e contra restrições vou dando uma nova esperança a quem me vê passar, a quem sabe pelo que eu estou a passar.
Sinto a cada passo que estou cada vez mais perto.
Sinto no coração um novo pulsar e isso só poderá querer dizer que te estou quase a encontrar.
Sinto! E apenas isso me faz continuar!!


Fotografia: Roads, sun.. and a bird by Anitya
(All rights reserved)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Amores perdidos


Pousou suavemente o queixo na palma da mão como quem pousa um recém-nascido no berço. A sua mão em forma de concha acolheu carinhosamente o seu queixo. Deixou-se ficar ali. Parada. Imóvel. O seu olhar atirado para lá do vidro do café que alcançava não sei bem o quê. Tentei olhar na mesma direcção para onde o seu olhar se dirigia mas dei por mim incapaz de afastar os olhos dela.
Sozinha na mesa, com as pernas cruzadas e sentada meio de lado, meio de frente encontrava-se iluminada pela sua própria paz. Olhava o mundo que corria que nem louco lá fora, as pessoas a correrem para se abrigarem da chuva que começava a cair, os carros que aos poucos e poucos acendiam as luzes como se de uma árvore de natal global se tratasse e os seus olhos presos àqueles movimentos, presos àquelas pessoas, presos às gotas de água que caiam suavemente. Tudo em harmonia como se de um enorme bailado se tratasse.
Os seus olhos pareciam ser os maestros da música que se ouvia. Os chapéus de chuva que se abriam, as gotas que se suicidavam contra os toldos, o pára e arranca dos carros, uma e outra buzinadela. As vozes mudas das pessoas intercaladas pelos passos apressados.
Foi ali que me apaixonei da maneira mais perdida.
Foi ali que amei da maneira mais sentida.
Foi ali que me entreguei como nunca me entreguei na vida.
Com aquele simples gesto, com aquele simples olhar.
Nunca mais a vi.
Mas guardo, como a um tesouro, o amor que senti.


Fotografia: Rainy day in Amsterdam by Denis Grzetic
(All rights reserved)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Rotinas


Todos os dias seguem o mesmo pêndulo de rotação horária. Sigo as horas, os minutos, os segundos por meio de compassos orquestrados por um sempre presente e ciente metrónomo. As manhãs que começam sempre à mesma hora. Sempre no mesmo segundo... o imediatamente antes do despertador levar a cabo a sua função. No segundo exactamente antes de o ouvir. Levanto-me já com o peso do resto do dia nas pernas e com o cansaço da semana já impregnado.
Os passos a seguir seguem uma valsa bem demarcada. Sempre dentro de ritmo, sempre dentro do compasso, sempre dentro do tempo.
O caminho para o trabalho, os gestos efectuados, o agendar as tarefas, o organizar da agenda. Trabalho feito, trabalho arquivado. Novo trabalho e isto numa continuação que parece nunca ter fim. A hora de almoço que chega invariavelmente à mesma hora. A mesma hora praticamente para todos. E que nem rebanho bem mandado seguimos todos em direcção à manjedoura para aconchegar o estômago daquilo que já nem sabemos já saborear. Comer acaba por ser mais uma tarefa agendada e destituímos dessa refeição todo e qualquer prazer.
O fim do dia chega sem surpresas. Sem emoções. Chega porque tinha que chegar. Chega porque o sol segue o seu próprio tempo. Porque as horas sucedem-se e por muito que tentemos ir contra isso nada faz parar esse relógio universal de todos conhecido.
À noite as tarefas não mudam e parece que andamos todos às voltas sem saber muito bem o porquê.
Agora que me encontro deitado (sempre para o mesmo lado)dou por mim sem conseguir adormecer. Desta vez as horas sucedem-se mas eu estou de olhos abertos a ver isso acontecer. Os números vão-se sucedendo no visor electrónico de cores avermelhadas e nas paredes com o mesmo tom vou vendo as palavras que penso impressas numa qualquer matéria que não possui nem forma nem peso.
Amanhã um dia igual me espera.
Amanhã pode ser que adormeça pelo cansaço acumulado de uma noite mal dormida...
Amanhã pode ser que seja um novo dia.


Fotografia: The Architect by Nuclear Seasons
(All rights reserved)

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Paixões


Lembro-me de a ter entrevistado um dia.
Uma mera entrevista. Perguntas seguidas de respostas. O problema nem foi preparar as perguntas. O problema foi quando recebi as respostas. Num ar quase ecléctico. Num ar quase boémio. Num ar ar de quem nem queria saber. Com o seu próprio ar, como quem nem precisa de respirar.
"Se eu já verdadeiramente me apaixonei? Oh filho... e fiz lá eu outra coisa na vida? Descobri, sem ter precisado de ir ao médico sequer, que afinal não tenho outros órgãos que não o coração. Apaixonei-me tantas vezes que houve alturas em que desconfiei mesmo ter perdido a razão. Apaixonei-me por homens sem escrúpulos e por doutores. Por miúdos com muito mais coluna de que homens adultos. E por adultos que afinal não passaram nunca de miúdos. Homens casados alguns. Olhe viúvos é que não! Apaixonei-me mais vezes do que seria normal e o pior? É que continuam todos guardados no meu coração. Amei-os a todos com o mesmo fervor. A todos com a mesma paixão. A todos com a mesma excitação. Sabe como é estar apaixonada assim? Espero que sim meu filho. Espero que sim. Apaixonei-me, provavelmente, mais vezes do que era realmente preciso. Mas sabe de uma coisa? Na paixão não há medidas. E nunca é demais. Apaixonei-me só pelo olhar. Cheguei mesmo a apaixonar-me sem sequer os conhecer. Apaixonei-me só porque precisava de o fazer. A nenhum deles alguma vez me dei. Mas fui-me dando sempre. Nunca menti e nunca jurei que seria para sempre. Afinal quem o faz chega mesmo a cumprir? Nunca formei família mas é para isso que serve a imaginação.
Apaixonei-me vezes sem conta e alturas houve em que julguei já ter perdido a razão. E sabe que mais meu filho? Descobri que só assim se pode realmente viver."
Aquelas palavras ficaram a tilintar em mim desde então.
Hoje li no jornal o seu obituário. Morreu como gostaria.
Parou-se-lhe o coração.


Fotografia: The confusion of toungues by NuclearSeasons
(All rights reserved)

Em vão...


Tentou em vão agarrar... mal lhe tocou. Mal a sentiu.
Veio-lhe logo à cabeça as imagens dos filmes de Hollywood. Belas histórias de amor e de guerra onde quando tudo se julgava perdido há uma mão que se consegue agarrar. Há um toque que consegue fazer a diferença. Há uma ideia luminosa que a todos consegue salvar.
Ficou especado no meio da rua. De repente sentiu-se candeeiro. Semáforo. Sinal de trânsito. Sentiu-se enraizado no alcatrão. Sentiu-se parte das riscas da passadeira... sentiu-se pisado, ultrapassado, ignorado.
Tentou em vão agarrar e ali ficou de mão estendida com o olhar preso num lugar qualquer do longínquo vazio. Não conseguia apagar da sua mente as imagens tantas vezes repetidas em filmes e a sensação de impotência porque nem um toque houvera. Não conseguia apagar do corpo a sensação de quase sucesso. Não, não lhe tocara... quanto mais agarrá-la.
Deixou-se ficar parado.
Passaram as pessoas que mais tarde voltaram a passar em sentido contrário. Passaram os carros, primeiro apressados depois de luzes acesas e já mais cansados. Passaram os cães presos pelos donos e por todos ignorados. Passaram as crianças felizes de estarem de novo com os pais e os pais já cansados de estarem novamente com as crianças. Passaram as horas mas não passou a sensação de ter falhado. Não a conseguiu agarrar. Nem a conseguiu tocar.
Recomeçou a andar mas sem conseguir evitar olhar de novo para trás... não a viu.
Resignado aceitou que tinha deixado a sua Esperança escapar!


Fotografia: Walking down the street by Blindbird
(All rights reserved)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

"And I don't believe..."


Em caso de confusão
deixo a porta aberta
pelo sim pelo não...
Em caso de dúvida
deixo-te a chave na fechadura
e fico a aguardar a abertura
Em caso de medo
fecho-a só por um instante
e fico à tua espera impaciente
Em caso de cansaço
vou mudar a fechadura
só para dar o caso como encerrado!


Fotografia: Open the Door by Pirulacidos
(All rights reserved)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

...




Trazia na carteira a moeda de outros tempos.
Moeda velha e suja, sem valor, obsoleta. Mas era a sua moeda.
Numa carteira de pele velha que, em caso de dúvida, demonstrava bem a idade do seu dono. Uma carteira velha. Bastante usada. E tal como a moeda sem aparente utilidade. Mas era a sua carteira! E nela encontrava-se a sua moeda!
Uma moeda que o lembrava dos tempos idos. Dos tempos em que aquela não era única moeda. Dos tempos em que a carteira era, de facto, usada... utilizada.
Com o tempo ficaram as marcas dos fatos que já não usava. Das reuniões a que já não ia. Até mesmo o cheiro do móvel de mogno da entrada da sua casa onde todos os dias pousava a carteira quando chegava.
Agora continha uma moeda que já mais ninguém usava. Um Bilhete de Identidade que já não tinha validade e papeis que na rua encontrava.
Pedaços de jornais que o agarravam a um tempo memorial... que o ligavam a memórias que já eram intemporais.
Admitia no cair da noite que sentia que a sua cabeça já não era a mesma e por vezes confundia as datas, os nomes, as pessoas, as ruas... chegava mesmo a confundir-se a ele próprio quando via o seu reflexo numa qualquer montra e sentia o impulso de puxar da sua carteira, para buscar a sua moeda e...
Tinha uma fotografia de um filho pequenino e que agora já casado, bem na vida... Um Doutor! Sorria quando dele falava mas eram as lágrimas que lhe escorriam quando à noite dele se lembrava que mais doíam. Já há muito que não o via e dele tinha apenas aquela fotografia e as memórias que se confundiam. Histórias que já nem sabia bem se eram as suas se eram as dele e por vezes punha-se mesmo a pensar que memórias teria o filho.
Tinha a vida naquela carteira e se alguém lhe fizesse a maldita pergunta ele nem por um segundo hesitaria:
"Leva-me a Vida... porque dela já só tenho esta carteira!"


Fotografia: Homeless by Isahn
(All rights reserved)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Tempo


Hoje estou como o tempo.
Ou será o tempo que está como eu estou?
Nunca percebi quem influenciava quem...
Estas questões são sempre (i?)relevantes e sempre me ocuparam grande parte do tempo, terá sido talvez por isso que acabei por tirar um curso de Filosofia. Ou por isso ou por não ter conseguido entrar em Direito. Lá está! Esta é mais uma das questões à qual não consigo encontrar reposta.
Como a de saber se ouço música triste porque estou triste ou se é por ouvir música triste que fico (ainda mais) triste.
Tento não pensar muito nisto. Esta é uma das vantagens da idade que vai aumentando na parte de trás do Bilhete de identidade (e que de não sei quantos em não sei quantos anos se vai notando também na fotografia que se encontra à frente). Às tantas perdemos o interesse ou a curiosidade (ou pura e simplesmente a paciência) de tentar encontrar resposta para estas questões.
Mas hoje estou como o tempo. Ora acinzentada e a sentir-me enublada ora com uns raios de sol a despoletar.
Ora a sentir na pele o calor que me assola ora a sentir um arrepio agradável de frio.
Hoje estou assim, como o tempo!
Ou então é mesmo o tempo que está como eu!
Não sei!


Fotografia: Feel the silence by Nilgün Kara
(All rights reserved)

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Hoje vi-te


Hoje vi-te
Olhei para trás e vi-te
e tu nem sorriste
Segui em frente e não consegui sorrir-te
Hoje vi-te
vi impregnado no teu corpo as recordações de todos os dias
vi as discussões e as alegrias
vi tudo o que já não queria ver
e senti-me a morrer
Hoje vi-te
e tinhas no corpo o cheiro de todas as recordações
o cheiro de todas as emoções
e senti-me a desvanecer
Hoje vi-te
e tinhas no olhar o meu olhar reflectido
e nele tudo o que já não tinha sentido
e percebi que precisava de renascer
Hoje vi-te
e ao ver-te percebi
que estava a olhar para mim!


Fotografia: Almod II by Mehmet Turgut
(All rights reserved)

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O amor...


O amor é um estado de graça
dizem os entendidos
eu cá não sei
que nunca fui grande entendida nesses e noutros assuntos
Lá vou tendo as minhas paixões
sempre seguidas das suas decepções
que isto não há belas sem senões
Mas no fundo tudo se resume a sentimentos
a um ou outro estremecimento
e a uma outra boa sensação
Mas não me tomem por fria
sou uma moça bem quentinha
e que pende para os assuntos do coração...


Fotografia: nu by Yuri Bonder
(Todos os Direitos reservados)

quarta-feira, 23 de abril de 2008

"Mais valia não ser!"


"Mais valia não ser!"
Disse estas palavras com a certeza de quem afirma a sua existência e com essa mesma certeza afirmou a vontade de não existir
No fundo há toda uma história que antecedeu esta frase. Não era suicida nem tinha um ar mórbido de quem está desde que nasceu à espera de morrer. Não tinha uma vida de se ter inveja mas mesmo tendo consciência disto só o usava como mais um ponto positivo "Afinal a inveja nunca é boa vizinha!" dizia a sorrir. O sorriso era o característico da sua pessoa. Limitava-se a sorrir e era esse sorriso que iluminava os lugares e as pessoas em volta. Não era de dissertar discursos sobre a vida... limitava-se a vivê-la "o que de si já dá uma trabalheira...". Não era feia nem bonita, nem gorda nem magra, não era de seguir modas como nunca foi de seguir seja quem fosse. Vivia os momentos como únicos. Lutava quando tinha que lutar. Deixa-se ir abaixo nos intervalos "porque nem sempre temos forças nos braços para passar uma vida toda a nadar contra a corrente". Estes momentos duravam o que tinham que durar. Nem mais nem menos!
Mas hoje na mesa do café deixou cair-se na cadeira ao mesmo tempo que dizia "Mais valia não ser!" e todos percebemos o porquê...

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Questões práticas


Tachos, panelas e cortinados
No fundo somos todos uns azarados
andamos a viver ao sabor das ondas
e quem manda no mar é que está safo
Já de há muito se costuma dizer
na sapiência popular de sempre
que é melhor cair em boa graça do que ser engraçado
mas nem é isso que se passa no meu trabalho
alguém caiu em melhores graças
e esse foi o fim da picada
ou antes o início
porque agora mesmo que eu precise só de uma faca
mais vale pedir ao Estado um subsídio
Ora que raio de vida a minha
que de falta de confiança passo a linda menina
sim senhora bom trabalho! Mas isso não se reflecte no ordenado!
Preciso de uns cortinados
paredes alegres de preferência
de umas cores e de espaços inventados
precisava de um aumento na transferência
Precisava de objectivos
colocaram-me num crucifixo
mas em vez de santo fizeram de mim o judas
e agora é o deus me acuda
Tudo se resume a trabalhos de cozinha
apenas panelas e tachos
umas facas bem afiadas
e o pescoço de uns cortados à revelia
Preciso da falsidade das chefias
para poder viver bem nas coxias
precisava de ser visível
para que fosse reconhecida.


Fotografia: Encirclement by bucz
(Todos os Direitos reservados)

terça-feira, 11 de março de 2008

Why not today?



Sussurras-me na pele o toque dos teus dedos ...
não esperas por uma resposta
e a minha cabeça anda a mil
A minha voz perde-se nas curvas que o teu corpo me convida a percorrer
Sussurras-me na pele o desejo de outros dias
Sussurras-me na pele o toque de outras fantasias
e no ar ficam os silêncios que deixámos finalmente para trás
Já percorremos caminhos que nunca deveriam ser desbastados
Já sentimos os toques que nunca deveriam ter sido trocados
e deixámos no ar a possibilidade de ser sempre assim
...
Sussurras-me na pele os beijos que deixámos falhar
os beijos que deixámos antecipar
os beijos que acabámos por dar!




Fotografia: This my love story VIII by Mehmeturgut
(Todos os Direitos reservados)

quarta-feira, 5 de março de 2008

A vida velha, a vida vivida


"Pode estar velha, usada, rota e suja
não é por isso que deixo de a olhar com carinho"
Dizia estas palavras ao mesmo tempo em que os seus olhos lacrimejavam. Não sei se era pela idade ou porque se emocionara. Não lhe perguntei.
"Pode já nem ser o que era. Para mim é a mesma.
Por vezes as coisas não são o que são mas sim o que foram." Pára como se precisasse dessa pausa para respirar. Enquanto respira e com o mesmo vagar com que respira ampara-se naquela poltrona como quem coloca a mão num ombro de um velho amigo.
"Não! São o que representam. E para mim as suas representações são episódios da minha vida. São os cheiros da comida acaba de fazer. São as lágrimas dos filhos embalados. São as gargalhadas de cócegas e de brincadeiras."
De repente percebi. Aquela poltrona era ainda o que restava da sua vida e enquanto um existisse não valia a pena tirar o outro de cena. São peças que se complementam.
De repente percebi. Afinal aquela poltrona também era a fiel depositária das minhas lágrimas, dos meus sorrisos e das minhas zangas. Também ela fazia parte da minha memória visual, auditiva e principalmente emocional.
Ali também eu percebi a importância da vida...


Fotografia: Drain by Raun
(Todos os Direitos reservados)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Sendo assim não quero!


Se somos todos os iguais porque é que me sinto tão diferente?
"todos diferentes, todos iguais!" dizem-me vocês...
Não é isso que eu quero dizer, penso eu.
E esta é mais uma das diferenças. É só mais uma.
Falo, falo, falo
os meus lábios mexem-se. Sinto-o no meu rosto. Sinto os meus lábios que se tocam. Oiço em sons difusos, confusos, sobrepostos o que estou a dizer mas nem vocês me ouvem e nem a mim me apetece repetir.
De consciência tranquila sei que me preocupo. Com o cansaço das desilusões nas costas sei que nem sempre o fazem.
Se sabem que eu estou ali! Aqui! Em todo o lado disponível eu não posso dizer o mesmo. E é esse peso que me provoca dores infernais nas costas, que me abre fendas na coluna e que deixa fluir todo o seu líquido até que seque por fim... até que enfim... que seque finalmente.
Se somos todos iguais porque é que me sinto fora deste mundo? Expulsa deste mundo?
Se somos todos iguais porque é que acabo por, ao fim da noite, olhar para vocês sem vos reconhecer como iguais?
Se é este vazio, esta ausência de tudo o que nos torna iguais... então sinto-me mesmo diferente!


Fotografia: Same difference by Lars Raun
(Todos os Direitos Reservados)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Olha-me!


"Não me desgastes os ossos" - dizia ela com os olhos cravados no chão como se lá estivessem de facto as suas raízes
"Não tentes à força criar lume com eles. De tanto os bateres um contra o outro já mal me consigo aguentar de pé e não estamos mais quentes por isso
"Não me desgastes a pele" - suplicou ela a olhar para o céu como se a continuidade da sua vida disso dependesse
"Não tentes à força puxares-me. De tanto a esticares as estrias já são crateras por onde todo o meu interior ameaça fugir
"Não me desgastes os cabelos" - balbuciava ela de olhos semicerrados como quem já não aguenta mais os ter aberto
"Não tentes à força agarrar-me. De tanto te agarrares a eles já definham nas tuas mãos
"Arranca-me antes os olhos" - afirmou ela com o seu olhar fixo no dele
"Só assim poderás não mais ver a minha dor!".


Fotografia: Angel by Yuri Bonder
(Todos os Direitos reservados)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Sem pressas


Sem pressas arruma o que que durante anos levou a arrumar. Os mesmos gestos a ocorrerem nos mesmos lugares. As mesmas mãos que pegam, que limpam, que esfregam. As mesmas feridas de sempre.
No pensamento o vazio de quem não pensa. De quem já percebeu que não vale a pena pensar.
Os sonhos eram os de menina e esses rapidamente deixaram de ser sonhos para serem utopias. De utopias passaram a vazios. Mais um que lhe enche a cabeça de coisa nenhuma.
Sem pressas e com os passos decorados no pavimento do chão desvia-se dos móveis que sempre decoraram a sua vida. Um bom dote para a altura. Uma cruz para toda a vida. Desvia-se deles com a sensibilidade dos gatos mas nem os olha. Conhece de cor a posição que ocupam na sua cela. Esta casa que é a de alguém mas onde ela se sente presa.
Sem pressas e com as feridas de sempre senta-se hirta no sofá. Não ousa encostar-se. Não ousa descansar. Não ousa...
Sem pressas vai esperando que a vida lhe traga apenas uma surpresa. Apenas uma novidade. Apenas uma porta aberta.
Sem pressas continua a esperar.

Fotografia: s/título de Yuri Bonder
(Todos os Direitos reservados)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Vamos brincar?


Não faço ideia do que seja, dizia ele constantemente. É que não faço mesmo ideia.
Os papeis ia-os rodando como se de um mapa se tratasse.
Eu ainda pensei que fosse mesmo um mapa pois via-se que estava perdido.

Volta não volta pegava na embalagem. Mudava de posição. Coçava as pernas. E voltava a pegar nos papeis.
Eu ia imitando. Pelo menos a parte do mudar de posição. Pelo menos a parte do coçar as pernas, que isto de estar sentado no chão deixa as pernas dormentes.
E estava ali, sentado, à espera.
Novamente os papeis a rodarem. Eu ainda pensei que as letras fossem rodando ao mesmo tempo, que isto de ler de pernas para o ar parece-me ainda mais complicado do que ler a direito. Mas o meu pai sabe tudo por isso para ele deve ser fácil.
Ficámos ali o que me pareceram horas (e pelo ar de chateado da mãe devem ter sido séculos).
Finalmente descobriu o que eu já tinha descoberto há muito (mas não sabia que era isso que ele estava a procurar senão juro que já lhe tinha dito, mas juro mesmo!). O meu pai descobriu que aquela embalagem era só um brinquedo. Um brinquedo normal, sem pilhas, sem botões, que não se mexe, que não se comanda. Onde temos que usar a imaginação e irmos construindo um mundo inteiro de possibilidades. Não havia ciência nenhuma... era só brincar.
Sorri encantado da vida porque agora sim ia começar a brincadeira a sério.
Meti-me de joelhos e olhei para ele ansioso.
Ele atirou os papeis para a caixa e levantou-se.

Acho que se desinteressou do brinquedo...



Fotografia: Legos by Sonicyouth
(Todos os Direitos reservados)